podes pensar, podes falar, mas tudo o que escrevas tem o poder de ficar.
18 de Julho de 2015

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O volante queima. Arde na pele, como que descascando-a pelas palmas das mãos. Sente uma espécie de formigueiro subir-lhe pelos braços, mas não descola daquele volante. Uma sensação meio suicida paira no seu pensamento, apoderando-se de uma espécie de vontade de destruição.

“É stress” dizia-lhe um colega. Muitos objectivos ao mesmo tempo. Um corpo que treme, um aperto no peito, que se fecha cada vez mais, que dói e corrói. O externo encolhe-se de tanta revolta, fúria que explode. Quer ter o poder de armar o carro como tiro certeiro a qualquer coisa. Assim pode deitar fora, expelir esse sofrer gratuito.

Hoje teve uma discussão ao acordar. A mulher não percebe a sua lástima de vida. Os filhos gritam tanto que o cérebro afunda-se num sino que badala a tamanha força, destruindo as células. Não pensa. Discute quando chega ao trabalho. Mais aperto no peito. Suores nas mãos, desequilíbrio, mas tem de se equilibrar. Julga-se. Volta a julgar os outros. Julga tudo. Os dias, as noites, os sentimentos, o trabalho, o café que não está como deseja. O chefe é um pulha, é seu pensamento. A mente ferve como uma caldeira desenfreada.

Conduz com a loucura no olhar. E fica vermelho.

Fodas. Fodas. Fodas. Puta que pariu estes semáforos. Vermelho. Vermelho. Fodas.

Tantas palavras que cerra os dentes por diante. Fica quase no desmaio. Carros que fumegam cheiros insuportáveis, pessoas tristes, gritos no carro ao lado, música infernal no da frente.

Meu merdas, desliga essa merda de música, efemeramente a ideia de dizer alguma coisa atravessa-lhe a cabeça. Mas não diz. Apenas contém, ainda contém mais e mais. Panela pronta a rebentar. Liga o rádio, sai a noticia de mais problemas. Mortes, desgraças, mundo a acabar. Latejo que não passa.

Fodas, quando é que fica verde? Vamos, vamos. Eu não posso desligar. Não posso perder o controle.

Os outros. Os seus olhos. Os seus julgamentos. Sente-os todos no seu ser. Olha em volta e todos o observam, o veem, mesmo que não estejam ali. Dedos apontados, palavras escritas no silencio, ditas na escuridão. Existes logo tens de ser julgado.

Não!!!!!!

Vermelho ainda. Ao fundo um rapaz brinca aos circos. Malabaristas. Sorri. Nem se recorda da ultima vez que viu um sorriso. Nem se lembra de olhar o sol, que parece aparecer por trás dos pedaços de madeira que o rapaz atira ao ar e agarra com leveza. É como se tudo estivesse organizado na vida daquele que veste roupas simples, sem gravatas apertadas, sôfregos de fatos justos, nem sapatos de verniz. Tem umas sandálias, calças de cores. E sorri.

Porra, como é que ele consegue sorrir?

E quando termina vem na sua direcção.

Não posso falar com ele. Fecha a janela. Uma peçonha aproxima-se, um vírus letal que o pode transformar num ser sorridente. Tem de se afastar. Todos se fecham. Ficam de olhares em riste no semáforo. O rapaz não para de sorrir. E agradece. Continua até ao seu carro. Bate-lhe no vidro. Não quer olhar. Não quer, não quer. Treme ainda mais. Soa ainda mais. Perde ainda mais.

Desculpe, eu não mordo.

E numa vesga de olhar, vê aquele sorriso. Inveja que entra e se apodera. Vontade de sorrir também. Impulso que leva o dedo ao controle do vidro. Este abre-se. E na outra mão uma moeda. Estica-se e deita-a no chapéu. Os lábios do rapaz rasgaram-se ainda mais.

Grato.

Que palavra. Que som. E sorri tanto que lhe rebenta a boca. Não consegue parar de rir. E os dois riem-se como doidos. Como crianças de chupa na mão, como amantes de amor no peito, como amigos de paixão nas mãos.

Apitos de outros carros ecoam pela estrada, mas não sai dali. Ri tanto que a barriga já lhe dói.

Vê, não dói nada.

E não.

Verde. Seguir em frente. No espelho fica um rapaz a acenar-lhe. É livre.

Liberdade. Sorriso. De novo o sol. Brilho.

Afinal...

publicado por opoderdapalavra às 17:13
16 de Julho de 2015

 

 

 

A ponte. O alto dela.

O corpo. O homem dele.

Os olhos. O olhar deles.

O horizonte. O principio dele.

Em baixo, carros atropelam o silencio e rasgam a escuridão. As luzes abraçam-se no escuro do alcatrão. Existe um cheiro roto de combustível.

Ao longe, luzes percorrem todas as avenidas, num filamento de ornamento. Pessoas que preenchem com as suas passadas todas as partes da calçada. Prédios altos e outros baixos. Uns mais baixos ainda e outros mais altos do que os altos que se possa imaginar. E no ar um sabor a vento. Norte. Servido a frio, com um toque marítimo pelas ondas que debasta e um limar de pinheiro.

No céu a noite que veio. Ficou e deixou-se estrelar. Pontos minúsculos que se acendem magicamente. Talvez venha um certo infinito inundar todas as retinas e deixá-las cegas, perdidas no imenso preto que cobre a cabeça.

Os seus braços não se movem. Nem mesmo as pernas. Nada se move senão as pálpebras. Move a visão de um lado para o outro. Busca? Talvez, ou então apenas repara. Fato negro, sapatos em bico. Cabelos lisos e que se deixam ondular pela brisa forte que chega ao topo da viga. Daqui vê-se tudo. Daqui sente-se tudo. Não há coração mais palpitante que este. No topo da ponte.

Escuta-se um relógio. Longe, mas badala com força. É hora.

O corpo dobra-se e deixa-se cair. Vai em riste, firme e erecto. Flecha que desce.

Um, dois, três carros que param, de olhares em espanto, gritos em pranto e mãos enroladas à cabeça. Um corpo que se atira. Que nome ali vai, meu deus?... se existes, porque vai ele ali?

Apitos que alertam, palavras que esvoaçam no ar. Alguém chega mesmo a olhar. E lá em baixo nada se ouve, nem mesmo qualquer movimento no correr da água. Onde caiu? Onde foi aquele corpo que caia?

Está longe já. Asas batendo. E os cabelos. Sempre lisos continuam ondulados. Tem a cidade na frente, e uma janela aberta aos fundos de um bairro. Senta-se no beiral, de escuta activa. Dentro uma mulher apregoa ajuda. Bate forte nas portas, apelando ao socorro. Tem a pele tatuada por um negrume de sangue esbatido. Sente dor. Nos ossos e no coração. Um homem deita-se dois andares abaixo, imune a quem desce e sobe pelo prédio. Tem sono, agastado pelas horas. Fuma um ultimo cigarro. Os olhos pesados absorvem o fumo. De luz ténue, deixa-se ir, pelo adormecer. O turbilhão do dia apaga-se ali. Mas o cigarro não. Fica agarrado ao cobertor. Chamas sairão dali. Mais gritos. Mais socorros.

Asas que voam de novo. Um passeio de rio. Um banco sem jardim. Árvores sem flores. Dois jovens beijam-se. Senta-se por perto. Sente os lábios que se esgaçam, que falam pelo salivar de uma paixão. Repara nas mãos que já tocam os corpos. Abrem camisa, levantam saia, rasgam calças, arrebatam íntimos. Ecoam palavras que não se dizem. Soltam-se desejos que não se escrevem. Peles suadas. Suores que se colam um no outro. Gemidos de quem gosta, quem gosta geme como um ardor que se abrasa. A escuridão tapa as silhuetas que se penetram. A noite esconde a sensualidade que escorre pelo efémero sentido de apaixonar.

De novo no ar. De novo na ponte. Ainda alguém aponta uma luz ao rio. Nada. Ninguém. Alarmes perdidos em busca de quem não se vê. Mas ia um corpo a cair.

Fica ali, no seu lugar. Olhando a manhã que vem. Sem se mexer. Asas guardadas. Olhar fechado. A cidade por pouco que adormeceu, mas rapidamente regressou.

Uma ponte. Um homem. Algures, um tempo. De novo chegará a noite.

 

publicado por opoderdapalavra às 23:14
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