podes pensar, podes falar, mas tudo o que escrevas tem o poder de ficar.
15 de Junho de 2015

Da montanha chegou apenas notícias da neve. A notícia veio com o vento. Desceu por rasteiro e matreiro que sempre foi. Trouxe ainda as vozes que o silêncio ecoa pelos penhascos do Norte. Mas no caminho, as últimas rajadas já esquecidas no tempo, eram acompanhadas por um som diferente. Trazia palavras estranhas, gritos de quem sentia o corpo arranhado. Na praia só o pequeno Altrüss mantinha-se de olhos abertos à noite que nunca chegava. O sol teimava em estar de olho aberto, luz em riste sobre tudo que alcançava e a lua escondia-se para lá do risco do horizonte. Logo, foi o único que escutou o último vento que por ali passou. Curioso ficou com o choro que trouxe. Sim, Altrüss percebeu desde logo que de lágrimas se tratava. Levantou-se. Olhou a montanha. O frio queria cobrir o topo. Havia nuvens de algodão a abraçá-la. Havia um arrepio nas enseadas, no rio que ainda vinha líquido, e nos pássaros que fugiam para longe. Havia uma dor a estremecer lá no alto. Correu como se a noite chegasse antes de ele alcançar a voz que clamava por ajuda. Pegou na casa um casaco, um chapéu, bolsa com pedaço de pão, um cachecol e meia dúzia de rebuçados de mel. Ainda conseguiu encontrar a estaca do avô, que o ajudaria a escalar. As passadas eram mais ofegantes que a brisa que ficava nas costas. Tinha as mãos no tremer do andar. Tinha o olhar fixo. Subiu, subiu e subiu. Tanto que deixou de ver a escuridão da areia na praia. Deixou de ver a casa dos pais. A quinta do Sr. Jorgärfloudiu, e mais umas ruas que estão riscadas pela aldeia. À sua frente uma enorme montanha, repleta de encostas que se perderam na história das estórias. E o grito. Já escutava aquele lamurio de sofrimento. Diferente do que ouvira até aos dias de hoje. Ao longe a neve vinha em força. Apertava o frio. Sentia o corpo ficar em gelo. Mas não deixou de seguir quem o chamava. Mas aquela temperatura deitou-lhe a pele pelo chão. Sentiu a tontura que apagou o olhar. Ainda deixou sair um grito. Mas ficou tudo apagado. Voltou no instante de um respiro mais forte. Levantou-se em espanto. Uma fogueira, uma gruta profunda, sem saída na vista. Do outro lado das labaredas, um corpo demasiado estranho à sua imaginação. Tinha forma de grande, de enorme ser que se agiganta perante a sombra. Dentes saídos, olhos maiores que o pequeno Altrüss. Bafo nojento e um cheiro nauseabundo e redondo por todo o pêlo que parecia não terminar. Quem és tu? - mas a resposta foi um grunhir. Era a voz que escutava em choro. - És um Troll? Mas diziam que não existias. Quando o meu avô me falou de ti, a minha mãe disse que eras uma invenção. Mas o meu avô sempre me jurou que existias. E existe. - outra voz, no repente de outra sombra que veio do fundo da caverna - ele é um Troll assustado pelos homens que o caçam. Seu nome é Glundänsdell. E o meu é Arbörrflodin. Um Elfo ao teu dispor. Um Elfo? Mas... O teu corpo gelava na rocha. Encontrei-te na sorte de um pássaro que me veio chamar. Fui no encalço dessa rocha, onde os teus olhos se tinham apagado. Consegui na tempestade trazer-te. Ele aqueceu-se e salvou-te. Mas... O que andavas a fazer por estes lugares perigosos, em dia de tempestade? Vinha à procura do choro? Do choro? Sim. O vento levou-me as lágrimas de alguém que se lamentava. E eu quis vir ajudar. A noite nunca chega. As pessoas dormem, mesmo com o sol nas suas janelas, e eu queria saber quem deixava as lágrimas irem com o vento. Glundänsdell está ferido. Ferido? Sim, tem uma fenda nas costas. Uma lança de um dos homens que vem à montanha para matarem quem não lhes faz mal. Glundänsdell é apenas um Troll assustado. Gostava de ajudá-lo. Ele tem fome? Fome? Sim. Será que ele precisa de comer. Tenho comigo um pequeno pedaço de pão. Retirou o pedaço de que falara. Estava rijo, mas Glundänsdell não se rogou difícil. Deitou a boca nesse mesmo momento ao monte de massa e devorou-o. Depois o pequeno deu-lhe todos os rebucados, enquanto lhe fazia festas na fenda onde saía ainda uma espécie de sangue. Pegou na vara e queimou-a e depois juntou-lhe lama que se juntava às paredes húmidas. Raspou-lhe a ferida e cobriu com a lama que parecia ferver. Glundänsdell gritou que toda a cave se encolheu. Mas depois suspirou. A ferida fechou. Deixou de ter sangue. Deixou de estar em dor. O Troll agarrou no pequeno e abraçou-o. Este quase ficou sem ar, o próprio Elfo teve de ir em seu alcance. Nas aldeias fala-se ainda hoje que um pequeno rapaz trouxe um Troll para ajudar nas obras de reconstrução. As casas haviam sido destruídas pelo vulcão Efullmfjurdell, o grande monstro da montanha. Depois de anos a subir e a descer, levando comida aos seus amigos Troll e Elfo, Altrüss trouxe-os pelos trilhos de lava. Desde esse dia que os Trolls deixaram de ser perseguidos e o Elfo deixou de ser uma mera estória de encantos. Ainda hoje se conta que os 3, pelos dias que não são noites, surgem junto à praia de areia preta e ficam junto à rocha de Odin, a conversar e a rirem. O vento traz de novo a voz da neve e do silêncio da montanha. E leva de novo a conversa de quem se junta pela fogueira da praia, junto às estórias que nunca se separam da fantasia... Mas que serão sempre a realidade da imaginação.

publicado por opoderdapalavra às 23:33
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