podes pensar, podes falar, mas tudo o que escrevas tem o poder de ficar.
30 de Dezembro de 2014

Tempo.jpg

 

 

 

Encontra-se sentado à porta do tempo. Espera pela vida de alguém, depois de ter batido, a soco e murro, naquela forma rectangular de madeira. Cansou-se, aliás, quem se cansou mais foram as mãos, que magoadas de tanto esmurrar, ficaram nos rastos das suas forças. E sentou-se no chão, ou melhor, num degrau de rocha, envolto por uma névoa fina, que esfria ainda mais o penedo. Quando resolveu vir até junto do tempo, ele nunca pensou encontra-lo de facto. Falava-se dele como sendo um senador dos destinos dos homens, mas nunca ninguém o vira, ou mesmo escutara a sua voz. Dizia-se pelos campos, pelas cidades e pelos caminhos que percorrera, que ele estaria sempre no mais alto ponto das montanhas, avistando todos aqueles que aprisiona enquanto seres vivos.

  • Vá até àquela montanha, mas cuide-se, porque de lá pode não voltar mais – segredava-lhe uma mulher fugidia, que após se escondeu nas sombras da casa. Era a ultima aldeia antes da grande montanha. Era um pequeno amontoado de casas, mal paridas pelas mãos do homem, meio esguias, cheias de imperfeições, digamos, uma aldeia de casas estranhas e povoada por pessoas também elas meio arrepiantes. Eram corcundas, todas, de pernas tortas e um nariz cheio de verrugas. Ah, e todas mulheres. Não existiam crianças, nem homens, nem mesmo nenhum animal. Lá longe, na distante civilização dos homens, dizia-se que eram bruxas que guardavam o tempo. No entanto, elas defendiam-se dizendo que – nós não somos nenhumas bruxas, somos vitimas do abandono, do esquecimento. Foi ele, o mísero tempo que nos largou aqui, para que todos se esquecessem de nós.
  • Mas porque faria ele uma coisa assim?
  • Porque ele não gosta de nós. Nem de ti, nem de ninguém. Ele é egoísta, quer apenas brincar connosco.
  • Não entendo.
  • Entenderás quando chegares aos olhos dele. – a única mulher que lhe falou mais do que simples chamadas de cuidados, fora a mais baixa da aldeia. Contou-lhe que nascera pelas bandas sul de uma grande cidade, e um dia rogou ao tempo o tempo que não lhe era devido, para poder recuperar o que o tempo lhe deu mas nesse dia, lhe tirou. Um filho. Nasceu, cresceu e antes que fosse dia para ele partir, ele foi-se embora com o vento da manhã. Ela acordou e reparou que nada tinha vivido com ele, que precisava de regressar atrás e passar mais tempo com ele. Tarde. E assim ajoelhou-se junto ao corpo moribundo, e levantou os braços ao céu e desejou o indesejável, tempo. E ele veio, com a tempestade da tarde e levou-a até aquele maldito sitio. Alterou-lhe as feições, o corpo, para que nunca mais se recordasse de quem era e do que havia desejado. Mas ela nunca esqueceu. Mas nunca proferiu tal segredo, até ao dia em que ele surgiu, à procura do tempo. Ela sentira que uma profecia talvez se realizasse, e um qual libertador em suas pernas montado, viesse para as levar daquele amaldiçoado lugar.
  • Não sei do que fala.
  • Mas porque veio, então?
  • Porque foi ele que me chamou. – estranho sentimento, o que inundava ainda mais as mulheres daquele lugar. Um homem vir a conta do tempo, para lhe dirigir umas palavras, apenas porque ele o chamou?

E após uns momentos de conversas, palavras ditas com tempo, ele deitou-se a caminho, não fosse chegar atrasado.

E a espera continuava. O frio aumentava. A noite chegava devagar, em silencio, sem que se notasse que o seu manto cobria os mais gélidos ombros de alguém.

E foi nesse preciso momento que a porta do tempo se abriu. De dentro vinha uma escuridão profunda, sem sons ou algum sinal de quem abrira a porta. Parecia um toque de mágica aquele que levou aquele monte de madeira a abrir-se por completo.

  • Está aí alguém? Sr. Tempo, é Nestor, a quem disse para vir ao seu encontro. Está a ouvir-me?
  • – e por detrás da porta surgiu uma nuvem sorrateira, pintada a cinza e com uma pequena personagem no seu dorso. Vestia um fato de relógios, tinha uns sapatos de ponteiros e no cabelo um chapéu com um enorme relógio de sol. E um sorriso que trespassava os queixos. – Fui eu quem o mandou chamar. – Nestor estava perplexo com tal figura. Mal conseguia suster a respiração, quanto mais os pensamentos, estes que gelavam na sua cabeça.

(Porra, mas o que é isto? Ele existe mesmo )

  • Sim existo mesmo – sim, ele até a mente dele conseguia ler, o que o assustou ainda mais. – Eu sou o Tempo, o senhor dos senhores. Pensava que era uma lenda? Pensava que era apenas um relógio com que podia brincar...(vamos ver se consigo dizer-lhe isto a bem)...passado, presente, futuro, e depois mais um pouco de passado, não agora preciso de futuro e depois outra vez presente...e ponteiros para a frente, para trás e para o momento actual. É assim que vocês me veem, não é?
  • Não sei. Já não sei o que pense. Só gostava de saber porque me chamou até aqui. – O Tempo enviara-lhe um mail, com o chamamento, com as indicações meio riscadas, e com o tempo que ele teria para chegar. Tudo isto depois de Nestor postar no Facebook o que desejava para o ano novo que se aproximava.
  • Porque é que você, um inutilzinho humano, continua a pedir sempre mais tempo para os novos anos que se chegam? Acha que tem tempo a menos?
  • Porque nunca consigo realizar todos os desejos.
  • Então deixe de desejar. Agora não me peça mais trabalho, só para lhe poupar o trabalho de poder realizar o irrecuperável.
  • ..
  • Não há mas. Chega. Vocês humanos são prepotentes, irremediáveis. Tem todo o tempo que o mundo pode dispor para vocês, mas depois estão sempre a queixarem-se que sou eu, o Tempo, que detenho todas as culpas de não conseguirem o que de facto querem fazer. Sou desculpa para tudo, para a pobreza porque não houve tempo para fazer riqueza. Para a dor, porque não houve tempo para a alegria. Para o ódio, porque não houve tempo para o amor. Para a morte, porque não houve tempo para viver. Chega!
  • .. – e Nestor já estava de ajoelhado, junto à nuvem, derramando lágrimas.
  • Não chore por favor. Torna-se ainda mais ridículo. Acha que eu vou alterar alguma coisa, apenas porque vocês, seres pequenos, nunca conseguem realizar o que desejam para o ano seguinte? É todos os anos a mesma coisa. Eu chamei-o aqui para enviar uma mensagem a toda a humanidade. – e num toque de magia, levou-o até aos seus lábios, que apenas de zangado, continuavam sempre a sorrir. Depois deixou-o ir.

Nestor caminhou durante dias a fio, sem parar. Reparou que a aldeia das mulheres tinha o nome de “Adeus ao Tempo”, que as cidades tudo era feito a correr, que as pessoas com quem se cruzava andavam perdidas num mundo sem tempo e que ninguém o escutava, perdidos que estavam. Até que chegou a casa. Sentou-se ao computador, abriu o Facebook, e conforme o tempo o mandara, escreveu:

“ O Tempo acabou.”

Ninguém lhe ligou. Nem gostos, nem comentários. E ele esperou, como tinha-lhe sido dito. E esperou, até que a espera se tornou cansativa. Deixou o corpo cair sobre o chão. E adormeceu.

  • Está a acordar. Olá Nestor, bem vindo de novo.
  • Onde estou? – respondeu com a voz cambaleante.
  • No Hospital. Mas descanse. Ainda está muito fraco.
  • Que dia é? Há quanto tempo estou aqui? Porque não me lembro?
  • Tantas perguntas, é natural. Foi atropelado e bateu com a cabeça no chão. Perdeu os sentidos, e há umas 10 semanas que se encontrava em coma. Mas recuperou, e isso é o mais importante.
  • Mas e o Sr. Tempo?
  • O Sr. Tempo? Não sei do que fala. Mas olhe, pelo que sei, para uma pessoa super atarefada que era, sempre cheio de pressa, e sem tempo para ninguém, acho que o tempo lhe quis dar uma segunda oportunidade.
  • Já passamos de ano?
  • Ao tempo.
  • – a enfermeira saiu. Ele olhou a janela. Lá fora caia neve, floco atrás de floco. O céu era cinza. Virou a cabeça mais um pouco até alcançar a mesinha que estava bem junto à cama. Estava lá um enorme relógio. Parado. Tinha data e tudo. Parou há 10 semanas atrás. Ele abriu bem os olhos, e foi quando uma mulher rompe o silencio do quarto.
  • Olá.
  • Quem é você?
  • Não se lembra de mim?
  • Devia?
  • Fui eu quem o atropelei. – fitaram-se por uns segundos, até que ela continuou, contando-lhe que ia tão distraída na condução, transtornada por um telefonema do filho, que partira para longe do olhar, dizendo-lhe que já tinha idade para o fazer. Ela estava em choque no momento, porque sentiu o tempo que perdeu no passado e até se perdeu do tempo que o filho tinha, e este partiu, como ave que voa do seu ninho. E não era nenhuma bruxa, pensava Nestor, e era até bonita, e não vivia em nenhuma aldeia perdia no tempo. Esse que voltou a contar no relógio da mesinha, que regressou para lhe dizer,
  • Aproveita agora esta oportunidade e deixa de me pedir o que não deves, ou deixas de ter tempo para seres tu...

 

publicado por opoderdapalavra às 19:40
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