podes pensar, podes falar, mas tudo o que escrevas tem o poder de ficar.
30 de Dezembro de 2014

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Encontra-se sentado à porta do tempo. Espera pela vida de alguém, depois de ter batido, a soco e murro, naquela forma rectangular de madeira. Cansou-se, aliás, quem se cansou mais foram as mãos, que magoadas de tanto esmurrar, ficaram nos rastos das suas forças. E sentou-se no chão, ou melhor, num degrau de rocha, envolto por uma névoa fina, que esfria ainda mais o penedo. Quando resolveu vir até junto do tempo, ele nunca pensou encontra-lo de facto. Falava-se dele como sendo um senador dos destinos dos homens, mas nunca ninguém o vira, ou mesmo escutara a sua voz. Dizia-se pelos campos, pelas cidades e pelos caminhos que percorrera, que ele estaria sempre no mais alto ponto das montanhas, avistando todos aqueles que aprisiona enquanto seres vivos.

  • Vá até àquela montanha, mas cuide-se, porque de lá pode não voltar mais – segredava-lhe uma mulher fugidia, que após se escondeu nas sombras da casa. Era a ultima aldeia antes da grande montanha. Era um pequeno amontoado de casas, mal paridas pelas mãos do homem, meio esguias, cheias de imperfeições, digamos, uma aldeia de casas estranhas e povoada por pessoas também elas meio arrepiantes. Eram corcundas, todas, de pernas tortas e um nariz cheio de verrugas. Ah, e todas mulheres. Não existiam crianças, nem homens, nem mesmo nenhum animal. Lá longe, na distante civilização dos homens, dizia-se que eram bruxas que guardavam o tempo. No entanto, elas defendiam-se dizendo que – nós não somos nenhumas bruxas, somos vitimas do abandono, do esquecimento. Foi ele, o mísero tempo que nos largou aqui, para que todos se esquecessem de nós.
  • Mas porque faria ele uma coisa assim?
  • Porque ele não gosta de nós. Nem de ti, nem de ninguém. Ele é egoísta, quer apenas brincar connosco.
  • Não entendo.
  • Entenderás quando chegares aos olhos dele. – a única mulher que lhe falou mais do que simples chamadas de cuidados, fora a mais baixa da aldeia. Contou-lhe que nascera pelas bandas sul de uma grande cidade, e um dia rogou ao tempo o tempo que não lhe era devido, para poder recuperar o que o tempo lhe deu mas nesse dia, lhe tirou. Um filho. Nasceu, cresceu e antes que fosse dia para ele partir, ele foi-se embora com o vento da manhã. Ela acordou e reparou que nada tinha vivido com ele, que precisava de regressar atrás e passar mais tempo com ele. Tarde. E assim ajoelhou-se junto ao corpo moribundo, e levantou os braços ao céu e desejou o indesejável, tempo. E ele veio, com a tempestade da tarde e levou-a até aquele maldito sitio. Alterou-lhe as feições, o corpo, para que nunca mais se recordasse de quem era e do que havia desejado. Mas ela nunca esqueceu. Mas nunca proferiu tal segredo, até ao dia em que ele surgiu, à procura do tempo. Ela sentira que uma profecia talvez se realizasse, e um qual libertador em suas pernas montado, viesse para as levar daquele amaldiçoado lugar.
  • Não sei do que fala.
  • Mas porque veio, então?
  • Porque foi ele que me chamou. – estranho sentimento, o que inundava ainda mais as mulheres daquele lugar. Um homem vir a conta do tempo, para lhe dirigir umas palavras, apenas porque ele o chamou?

E após uns momentos de conversas, palavras ditas com tempo, ele deitou-se a caminho, não fosse chegar atrasado.

E a espera continuava. O frio aumentava. A noite chegava devagar, em silencio, sem que se notasse que o seu manto cobria os mais gélidos ombros de alguém.

E foi nesse preciso momento que a porta do tempo se abriu. De dentro vinha uma escuridão profunda, sem sons ou algum sinal de quem abrira a porta. Parecia um toque de mágica aquele que levou aquele monte de madeira a abrir-se por completo.

  • Está aí alguém? Sr. Tempo, é Nestor, a quem disse para vir ao seu encontro. Está a ouvir-me?
  • – e por detrás da porta surgiu uma nuvem sorrateira, pintada a cinza e com uma pequena personagem no seu dorso. Vestia um fato de relógios, tinha uns sapatos de ponteiros e no cabelo um chapéu com um enorme relógio de sol. E um sorriso que trespassava os queixos. – Fui eu quem o mandou chamar. – Nestor estava perplexo com tal figura. Mal conseguia suster a respiração, quanto mais os pensamentos, estes que gelavam na sua cabeça.

(Porra, mas o que é isto? Ele existe mesmo )

  • Sim existo mesmo – sim, ele até a mente dele conseguia ler, o que o assustou ainda mais. – Eu sou o Tempo, o senhor dos senhores. Pensava que era uma lenda? Pensava que era apenas um relógio com que podia brincar...(vamos ver se consigo dizer-lhe isto a bem)...passado, presente, futuro, e depois mais um pouco de passado, não agora preciso de futuro e depois outra vez presente...e ponteiros para a frente, para trás e para o momento actual. É assim que vocês me veem, não é?
  • Não sei. Já não sei o que pense. Só gostava de saber porque me chamou até aqui. – O Tempo enviara-lhe um mail, com o chamamento, com as indicações meio riscadas, e com o tempo que ele teria para chegar. Tudo isto depois de Nestor postar no Facebook o que desejava para o ano novo que se aproximava.
  • Porque é que você, um inutilzinho humano, continua a pedir sempre mais tempo para os novos anos que se chegam? Acha que tem tempo a menos?
  • Porque nunca consigo realizar todos os desejos.
  • Então deixe de desejar. Agora não me peça mais trabalho, só para lhe poupar o trabalho de poder realizar o irrecuperável.
  • ..
  • Não há mas. Chega. Vocês humanos são prepotentes, irremediáveis. Tem todo o tempo que o mundo pode dispor para vocês, mas depois estão sempre a queixarem-se que sou eu, o Tempo, que detenho todas as culpas de não conseguirem o que de facto querem fazer. Sou desculpa para tudo, para a pobreza porque não houve tempo para fazer riqueza. Para a dor, porque não houve tempo para a alegria. Para o ódio, porque não houve tempo para o amor. Para a morte, porque não houve tempo para viver. Chega!
  • .. – e Nestor já estava de ajoelhado, junto à nuvem, derramando lágrimas.
  • Não chore por favor. Torna-se ainda mais ridículo. Acha que eu vou alterar alguma coisa, apenas porque vocês, seres pequenos, nunca conseguem realizar o que desejam para o ano seguinte? É todos os anos a mesma coisa. Eu chamei-o aqui para enviar uma mensagem a toda a humanidade. – e num toque de magia, levou-o até aos seus lábios, que apenas de zangado, continuavam sempre a sorrir. Depois deixou-o ir.

Nestor caminhou durante dias a fio, sem parar. Reparou que a aldeia das mulheres tinha o nome de “Adeus ao Tempo”, que as cidades tudo era feito a correr, que as pessoas com quem se cruzava andavam perdidas num mundo sem tempo e que ninguém o escutava, perdidos que estavam. Até que chegou a casa. Sentou-se ao computador, abriu o Facebook, e conforme o tempo o mandara, escreveu:

“ O Tempo acabou.”

Ninguém lhe ligou. Nem gostos, nem comentários. E ele esperou, como tinha-lhe sido dito. E esperou, até que a espera se tornou cansativa. Deixou o corpo cair sobre o chão. E adormeceu.

  • Está a acordar. Olá Nestor, bem vindo de novo.
  • Onde estou? – respondeu com a voz cambaleante.
  • No Hospital. Mas descanse. Ainda está muito fraco.
  • Que dia é? Há quanto tempo estou aqui? Porque não me lembro?
  • Tantas perguntas, é natural. Foi atropelado e bateu com a cabeça no chão. Perdeu os sentidos, e há umas 10 semanas que se encontrava em coma. Mas recuperou, e isso é o mais importante.
  • Mas e o Sr. Tempo?
  • O Sr. Tempo? Não sei do que fala. Mas olhe, pelo que sei, para uma pessoa super atarefada que era, sempre cheio de pressa, e sem tempo para ninguém, acho que o tempo lhe quis dar uma segunda oportunidade.
  • Já passamos de ano?
  • Ao tempo.
  • – a enfermeira saiu. Ele olhou a janela. Lá fora caia neve, floco atrás de floco. O céu era cinza. Virou a cabeça mais um pouco até alcançar a mesinha que estava bem junto à cama. Estava lá um enorme relógio. Parado. Tinha data e tudo. Parou há 10 semanas atrás. Ele abriu bem os olhos, e foi quando uma mulher rompe o silencio do quarto.
  • Olá.
  • Quem é você?
  • Não se lembra de mim?
  • Devia?
  • Fui eu quem o atropelei. – fitaram-se por uns segundos, até que ela continuou, contando-lhe que ia tão distraída na condução, transtornada por um telefonema do filho, que partira para longe do olhar, dizendo-lhe que já tinha idade para o fazer. Ela estava em choque no momento, porque sentiu o tempo que perdeu no passado e até se perdeu do tempo que o filho tinha, e este partiu, como ave que voa do seu ninho. E não era nenhuma bruxa, pensava Nestor, e era até bonita, e não vivia em nenhuma aldeia perdia no tempo. Esse que voltou a contar no relógio da mesinha, que regressou para lhe dizer,
  • Aproveita agora esta oportunidade e deixa de me pedir o que não deves, ou deixas de ter tempo para seres tu...

 

publicado por opoderdapalavra às 19:40
23 de Dezembro de 2014

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Este é o ultimo texto que coloco do meu curso com o Pedro Chgas Freitas. Foi dos que me deu mais gozo em escrever. Leiam-no sem pudores, e imaginem. Vão ver que se vão divertir. Grato a todos. Até breve e Boas Festas!

 

 

"Ao entrar na La Bodega, Salvador percorreu, como sempre, todas as salas, vasculhando pelo seu corpo, pelo desenho da sua linda mulher. E ali estava ela, traz um vestido acetinado, preto, colado com a pele. Criava uma temperatura, criando um desejo mundano que inundava a respiração de todo o ambiente. Era a ultima sala, onde Juanito preparava as notas soltas de mais uma musica. Havia pouca gente, e a luz era apenas uma leve e sombria mancha que cobria todo o lugar. Num dos quatro cantos, sentado junto a uma mesa comum, o estrangeiro bebia, como é habito, o seu vinho. Argentino, para não variar do seu paladar. Copo cheio. Garrafa estreada. E Juanito rodou os dedos pelos botões do arcodeão. Começou, como habito, mais um tango. Os lábios do estrangeiro colaram-se ao copo, deixando-se ir ao sabor do seu intimo. “Cheval des Andes”, nome do fluido dos deuses. Mistura de forma fina, três corpos, que se entrelaçam por entre o fino sabor de Cabernet Sauvignon e Malbec, par que dança a sensualidade como fantasia de sentidos apurados. Mas este casal tem o corpo musical de Petit Verdot, que pauta todo o andamento, onde a transpiração se cola aos engrossados lábios. Existe uma espécie de beijo que apura o amor, uma espécie de tacto que define o desejo, e uma espécie de sonho, ilusão que transporta o pensamento pelo pecado orgásmico. Os odores unem-se, lembrando framboesas e amoras maduras, dando uma perfeita intensidade ao toque nas linguas, já salgadas de tanto suor que transpira das papilas gustativas. Os dedos deslizam pelo corpo, baixando pelo pé que sustenta toda a magia, orientados pelo toque notável de chocolate de leite e sugestivos aromas florais. Depois de tantas notas, com a voz rouca de um Juanito que modelava toda a melodia de Carlos Gardel, olhava-se uma bela textura de cor violeta, bem densa, que exprimia toda uma jovialidade sensual. Por isso, deixou-se ficar mais uns segundos, sentindo na boca, todo o seu vigor, o equilibrio de um corpo eroticamente equilibrado e afrutado. E o ultimo gole do estrangeiro coincidiu com um ultimo poema que saía daquele apixonado cantor:

“Acaricia o meu sonho

O suave murmúrio do teu suspirar

Como ri a vida

Se os teus olhos negros me querem olhar

E se é meu amparo

O teu sorriso leve que é como um cantar

Ela acalma a minha ferida

Tudo, tudo é esquecido.

O dia que me querias

A rosa que te enfeita

Vestir-se-á de festa

Com a sua melhor cor

O soar dos ventos

Dirão que já és minha

E as fontes loucas

Cantarão o teu amor

A noite que me queiras

Desde o azul do céu

As estrelas ciumentas

Olharam-nos passar

E num raio misterioso

Fará um ninho no teu cabelo

Vaga-lume curioso

Que verá que és o meu consolo.”

O estrangeiro ainda avistou o ultimo passo de Salvador e Mellia. Fitou-os e sentiu o que se respirava em toda a sala. O quente sabor do amor. "

 

publicado por opoderdapalavra às 16:24

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Para ele a alta velocidade, o quebrar as barreiras e limites, não é um carro em movimento, é o andamento do seu diapasão de vida. Precisa de ultrapassar essas fronteiras para se encontrar consigo mesmo. Tudo porque não a consegue esquecer. Tudo porque aqueles braços que contornavam o seu corpo lhe deixaram as saudades que apunhalam o seu peito, repleto de uma dor de remorso. Ele deseja atingir a mesma onda de som que conseguiu naquela noite. O motor esticou tanto, que a escuridão transformou-se em silencio, as estrelas pareciam querer tocar-lhes os olhos de tão disformes que ficavam, e o caminho era uma vertigem, tudo surgia e desaparecia numa tontura. E voou. Tirou as mãos do volante de deixou-se ir, naquela loucura de dimensões, onde não se percebe mesmo a linha que separa os dois lados. Ele ficou deste e ela passou a linha.

Sempre que atinge esse momento, ele larga as mãos e pensa no seu rosto, nas formas que desenhavam faces doceis e pintadas por uma pele tão branca que quase se sentia neve no seu seio. Com olhos da cor cinza, cabelos em preto marcado, e uma voz que deixava a frequencia do pensamento sintonizada na sua presença. Ele quer vê-la, e consegue-o, no exacto momento em que passa o local onde ela parou no tempo. Consegue avistá-la nas entranhas da noite, sorrindo-lhe, como se nunca fosse possivel mostrar outra faceta. Apenas sorrir, e docemente, olha-o, como que se divertindo com aquela sua forma de a encontrar. Ele não resiste em travar a fundo. Ouve-se a borracha a ser sugada pela força de um alcatrão que rasga e queima. E depois fica o silencio. O corpo dele é esticado pela força do cinto de segurança, que o amarrota e o joga contra o banco. A cabeça anda perdida, esticada pelos solavancos espontaneos da travagem, e depois de imobilizada, fica perdida de sentidos. É quando ela vem. Não precisa de muito. A porta abre-se na mesma escuridão daquela noite, e depois entra como uma pena, esvoaçando. E atravessa-o. Toca-lhe o coração, onde lhe deixa um beijo suave, o mesmo que deram naquela noite, antes de ser cuspida no pinhal que engole a estrada.

É neste momento que André acorda. Retira a respiração sufocante de quem regressa, e senta-se na cama. Envolve o corpo com os braços e entre lágrimas, mas também sorri. Com o mesmo sorriso dela. A pela suada seca e do ar vem um perfume ténue que entra pela janela. Vem do pinhal. Talvez seja o de Ana. Volta a fechar os olhos, inspirando-o com toda a força.

De seguida, o caderno. Era necessário apontar todos os pormenores dos sonhos, disse-lhe o psicologo. 16 anos, sem carta, nunca conduziu um automovel, nem conhece nenhuma Ana. Mas esta viagem dimensional começa a pesar-lhe os ombros cada vez mais. O pensamento começa a deixá-lo curioso quanto aos traços que o dia seguinte lhe pode trazer. Um deles pode riscar o nome Ana e começar a perceber. Mas fica também preso nas palavras cientificas de um homem para quem fala faz uns meses: são sonhos de adolescente, meu rapaz.

 

 

 

 

Estava tudo preparado. Os botões, as manetes, os corpos bem encaixados, os capacetes, as turbinas para a maxima explosão, o oxigénio, a metereologia, e até o medo estava preparado. Esse sentimento que assola qualquer um que entra naquelas cápsulas. São muitas as vezes em que tudo corre mal. Um calculo mal feito, o desgaste imediato de uma peça, uma fuga imprevista. E eis que surge a explosão. Não de lançamento, mas do fim. Em que tudo se transforma em fogo, numa bola falmegante sem fim. Por isso, há corações que batem num ritmo tão acelarado, e expressões de arpeensão tão estampadas que o medo parece sentar-se ao lado de cada um. E ri-se como palhaço. Boca bem aberta para que se veja a escuridão que ele trás vestido. A contagem começa. Tudo pode acabar agora. Tudo pode apenas parar sem se sentir. E os numeros chegam ao fim…sente-se o solavanco arremassar todos os esqueletos para trás. E depois de se pensar, depois de se sentir todos os receios, tudo fica para trás, no silencio que o espaço traz. E nas costas está ela. Bonita e singela. À frente, o futuro. Qual sera? Parece que afinal o passageiro invisivel continua dentro da cápsula.

 

publicado por opoderdapalavra às 15:01
21 de Dezembro de 2014

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Uma paragem será sempre uma paragem. Um sitio onde pessoas se encontram ou se desencontram, onde se beijam ou dizem um adeus, onde se conhecem ou terminam, onde se cruzam e nunca se recordam. Será sempre um local vazio ou preenchido, um sitio onde se pode abrigar dos pingos que caiem pela manhã invernosa ou do calor de um tarde de verão. Uma paragem sera sempre sinónimo de tempo ou da falta dele, de corridas apressadas ou de esperas demoradas.

E para Joana, a espera era já longa. A entrevista fora marcada para as 12 horas, e já eram 11,30. Meia hora não dava para chegar à marcação, e não tinha alternativas neste momento. Já tentou ligar, avisando a demora, mas o numero parece teimar um ocupado stressante. E chegou o 45. Tinha de arriscar. Entrou, pagou o bilhete, e seguiu caminho. Sentou-se junto a um homem que escostava a cara ao vidro, embaciando-o conforme expelia o ar. Ela olhava a rua, meia baça, meia turva. Não pensava em mais nada que não a entrevista.

Mas o motor quis calar-se após duas paragens. O coracão disparou, o corpo ergueu-se em direcção ao motorista, que pedia desculpas por uma pequena avaria. Joana ficou envolvida num nevoeiro de pensamentos, perdida e sem ideia do rumo que tomar. Ainda por cima, numa paragem vazia, sem nada que a pudesse ajudar. Até a rede do telemovel não queria colaborar. Sentiu que perdeu. E sentiu uma mão no ombro esquerdo. Virou-se e era o homem do vidro embaciado. Estava vestido com um fato preto, e agora até lhe parecia mais arrumadinho do que aquele tolo que adormecera no vidro encostado.

  • Sente-se bem?
  • Não. Não posso sentir-me bem. A vida hoje parece querer atraiçoar-me.
  • Mas como?
  • Tenho uma entrevista daqui a… - o relógio do telemovel parecia ser a unica coisa que funcionava – 5 minutos. Estou a uns kms dela, e era a minha grande oportunidade.
  • Porque não telefona?
  • Porque está sempre ocupado. Pensa que eu não me lembrei disso? Mas quem é voçê? Um inquisidor?
  • Não. Mas compreendo perfeitamente o que sente.
  • Compreende como?
  • Eu também estou atrasado. Na Vida…

( Este homem é louco! Hoje acontece-me de tudo.)

Joana caiu num choro desalmado.

  • Não chore. Peço-lhe.
  • Deixe-me estar no meu pranto.
  • Diga-me, que tipo de entrevista ia?
  • Para designer de publicidade.
  • Onde, posso saber?
  • Na Quality Lifetone.
  • Sabe quem a vai entrevistar?
  • Não. Porque?
  • Talvez a possa ajudar.
  • Porque?
  • O meu nome é João Pereira – Joana limpou por momentos as lágrimas que já lhe molhavam o peito – e estou atrasado para entrevistar uma pessoa, com o nome, espere – e retira o telemovel do seu bolso, onde consulta umas notas – uma Joana Abrantes, na Quality Lifetone, para designer de publicidade, e pelo que fui informado, ser o trabalho da vida desta senhora, rapariga ou menina, não sei, porque ainda não a conheço.

(Fodas! Isto não está a acontecer)

Ele sorriu-lhe, pegou-lhe pela mão e levou-a até a um dos bancos vazios. Ela não conseguia quase falar, mas ainda tinha forças para o questionar sobre o que o atrasou.

  • Ontem à noite fui informado que o meu pai havia falecido há dois dias atrás. Não o via há dez anos. E hoje, logo pela manhã, foi enterrado, sozinho, numa campa vulgar, com o unico filho, que o abandonou, a ver descer o seu caixão. Mas isso é outra historia.

Nesse momento, o motor regressou. O motorista sentou-se e continuou o caminho. Para trás ficou mais uma paragem…

publicado por opoderdapalavra às 00:52
15 de Dezembro de 2014

 

 

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A casa era apenas o nome atrubuido aos inumeros pavilhões que se perdiam por um perimetro demasiado longo para ser contado. Sempre que se entrava nela, havia a sensação de que o mundo mudava, parecendo mais encolhido no racional, e mais comprido no sonhar. Exemplo disso era Alvaro. Chegou cedo à casa, por volta dos 15 anos, e encontra-se nela faz uma duzia e meia de anos já. É ele que, pela manhã, corre os pavilhões, e todos os dias, como rotina, pergunta a todos os seus sonhos. As respostas perdem-se em novos nomes, novas personagens, novas historias. E Alvaro aponta-os todos. As enfermeiras procuram-no logo pela madrugada, para a medicação. Se não o fizerem, perdem-no nos gritos e nos saltos, imaginando. Ainda esta manhã, ele fez o sonho da gaivota. Agachou as pernas, em cima do armário do salão do pavilhão 3, abriu os braços, grasnou, e olhou bem o horizonte. Lá estava a linha do mar, que separa a terra do céu. Lá estava a brisa que soprava de norte, e acariçiava os cabelos. E lá estava o ar, onde podia largar as asas em batida, e assim voar e raspar as ondas que o mar traz, cheias de espuma. E saltou. E todos gritaram como gaivotas, batendo os braços e procurando rasar as paredes que eram sonhadas como rochas onde o mar vinha bater com força.

 

 

Naquela noite podia ficar apenas sentada, olhando a porta, e esperando que dela ele surgisse, vestido de negro ou num capote de cetim. Mas a duvida inundou-a como se preenche o rio com a chuva do temporal, e quase se sentiu afogada pela incerteza de ficar ou não. Tinha sofrido em demasia, não podia mais ficar apenas com a sensação de uma promessa que a fez esperar, a deixou ficar por ali, onde até o mar já esqueceu de abraçar a terra. Mas decidiu agarrar o banco e sentou-se nele com mesmo vestido que havia sido desejado. Branco, de pequenos folheados a contornar os ombros, e de resto era limpo, apenas a cor deslizava corpo abaixo. E olhou a porta. A mesma que havia fechado. Mas agora tudo era diferente. Sentia-se no ar que até o tempo, também ele envelheceu. Mas ela não se demoveu por isso. Ficou sentada. Ele havia de surgir. E recordava-se do momento em que lhe fechou aquela porta. Adolescente, já adormecida pelos desejos de ser mulher, queria mais do que apenas o sonho. Chorou uma noite inteira. Talvez mais, pois as horas cobriram ainda o amanhecer. E não queria mais escutar aquele murmurio de que a ilusão de uma criança pode-se tornar a realidade de uma mulher. Era altura de ver outros, diferentes, mais radicais, sem o medo de arriscarem. Queria sentir o sangue a tornar-se quente quando uns braços a cobrissem e a amassem. Limpou lágrimas, arrumou brincadeiras, livros, e uma ultima conversa. Ele compreendeu, e prometeu-lhe que voltaria assim que ela estivesse pronta para o receber de novo. Nesse dia ela iria vestir a noiva que nunca chegou a ser. Porque o medo…pois, o eterno receio de o perder for a sempre mais forte do que esposar alguém na verdade. Mas eram esses os momentos em que ela voltava-o a recordar e fugia. E tantas vezes fugiu, que acreditou que ele afinal voltaria…e abriria a porta do armário onde ela o fechou.

  • Achas que ela algum dia se conseguirá libertar dele? – o psicólogo, interrompeu-a por breves segundos.
  • Não sei. Mas sei o que ela sente por ele.

( Ou que tu sentes…)

Ela ama-o. Disso tenho a certeza.

 

 

 

– Porque nãos desces daí?

  • Talvez porque não queira. Talvez deseje mesmo cair daqui em vez de simplesmente sair.
  • Não faças isso.
  • Porque é que niguém percebe?
  • O quê?
  • Que a vida é uma merda, bem contada numa história com pequenos desenhos, onde todos acreditamos que tudo vai ter sempre uma resolução… até ao momento em que afinal os bonecos não passavam de bonecos, e nós ficamos sem rede no trampolim e caimos sem asas no abismo.

( Foda-se, tinha-me de sair um destes. Pedrado até ao tutano)

Os pés de Mario tornaram-se manteiga no preciso momento em que o cabo Elias lhe tenta deitar a mão. Mario começa a sua queda. 400 metros até ao chão. Mas apenas 100 até à rede das obras, onde miraculosamente, “o puto pedrado”, ficou pendurado e preso. Os seus olhos fixavam o fundo do prédio, e as lágrimas já eram apenas o arrependimento de quase terminar o livro sem primeiro criar o principio

 

 

 

 

Sempre na mesma sala. Sempre na mesma posição. Sempre olhando a mesma janela. Lá fora, fosse dia de chuva ou de sol, fitava sempre o mesmo horizonte, a cidade. E sempre a trautear,

São os loucos de Lisboa

Que nos fazem duvidar

Que a Terra gira ao contrario

E os rios nascem no mar

E chegava sempre José, o louco dos tiques irritantes, tocando-lhe no cruto.

- Porque cantas sempre a mesma coisa? – e estalava os dedos, em movimentos doidos e descontrolados.

E ele, sempre sem se perturbar com qualquer movimento, qualquer importunio, qualquer toque que o pudesse retirar daquela letargia musical, trauteava,

São os loucos de Lisboa

Que nos fazem duvidar

Que a Terra gira ao contrario

E os rios nascem no mar

José ainda ficou por mais uns instantes, tocando-se e remexendo-se, em tiques desgovernados. Mas ele olhava apenas a cidade e cantava, sem que o mundo fosse algo mais do que aquelas palavras

 

publicado por opoderdapalavra às 22:53
11 de Dezembro de 2014

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“Sentir o cheiro da cama, sempre que termina aquele jogo de corpos suados e penetrados, faz-lhe sentir que os seus desejos são sujos, mas alcançaveis. Sempre foi assim com as mulheres. Eu quero, eu tenho. E depois, é o arrancar das coisas inuteis que servem apenas para disfarçar os corpos. O resto são os detalhes que nunca mais memoriza. Apenas tem um código: nunca homens. Dizem quem experimenta, gosta. Ele é imaginativo, mas não chega a tanto.

-Gostaste?- João entrou no quarto e olhou-o de soslaio.

- Interessante. Talvez possamos repetir. – André sorria enquanto lhe tocava nas mãos.

Sairam sem mais palavras. O dia seguiu o seu caminho.”

 

publicado por opoderdapalavra às 23:11
10 de Dezembro de 2014

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" Tenho os pés assentes numa prancha. Não numa qualquer prancha. Sim, numa que se eleva a metros de altura, onde posso avistar as diferenças do horizonte. O sol parece estar mais próximo, o céu quase lhe toco e o vento, esse sopra-me na pele com a doçura de uma mão afectuosa que acarinha a alma. Mas alto ou não. Para onde? Para o abismo que se desenha lá em baixo.

Porque vim até aqui? Pelo desespero de me apaixonar e tudo sem livro de instruções.

Ela podia gostar de mim, penso eu. Mas não. Porquê? Não sei. Tentei encontrar tantas explicações, mas tudo se apaga quando ela diz: mas eu não gosto de ti, és simpático, mas nada mais. Simpatia é piedade escondida. Simpatia é ter um sorriso nos lábios só para dizer aos outros que também sorrimos. Simpatia é ironia. Já são três, as simpáticas que dizem que até pareço uma conjugação de adjetivos agradáveis, mas todos somados não dão para um beijo apaixonado. E aqui estou. Decido se salto ou não. Assim posso sentir qual a sensação de escolher entre o sim e o não. Até posso viver com a minha simplicidade de cidadão exemplar, arrumadinho, aéreo e professor dedicado. Mas não consigo viver sem companhia, viver na solidão. Anseio por um abraço, mas apenas consigo sentir-me a mim próprio, amarrado no meus braços. Beijo-me no espelho, acaricio-me no banho, e nada mais.

Salto ou não? Porra, nem para decidires essa coisa de te despenhares num simples chão de terra consegues ter uma decisão.”

 

 

 

 

" Um homem qualquer. Um daqueles que qualquer um pode ser. Nada mais. Cabeça, membros, e um corpo de resolução flácida e enrrugada pelo desarrumo do mau gosto. Pode-se dizer que o exterior não é tudo, pois sim, mas o interior também não tem muito a mostrar. Enfim, qualquer homem pode acabar assim. Sem um amor que dentro de si mesmo o conforte, uma voz que o anime e lhe oriente o caminho, tudo pode terminar numa prancha.

Porquê uma prancha, e não uma ponte, um viaduto, o cume de uma montanha? Porque um homem qualquer sempre deseja voltar ao mesmo desânimo banal de auto piedade. Por isso nada melhor que uma prancha elevada ( um pouco!)acima do nível da água, para que a impressão de fim iminente esteja sempre presente, mas tudo termine num banho frio e ilustrando o receio de ser mais do que um homem qualquer. Como eu!

Sou de corpo musculado, eu sei. Inteligente, eu sei. Confiante, eu sei. Mas não é de mim que agora desejo falar, mas sim da personagem que está a ocupar o lugar que me pertence. Quem o colocou lá? Eu, claro. Sou o narrador desta estúpida história lamentosamente contada. Mas eu quero a prancha daquela piscina. Quero ser nadador voador sobre as finas águas que a alimentam. Quero abeirar-me das suas margens e sentir a doce melodia do seu desenho. Sempre sonhei ser figura principal de uma piscina assim. Contornos que parecem as ondas de uma guitarra do The Edge, toca-me como a música "With Or Without You", assim eu serei, peixe voador com ou sem asas que me projectem no leito daquela piscina.

Mas antes preciso de dar movimento à personagem. Este homem qualquer agora pensa...( aborrecido!), mas tenho de lhe dar pensamentos:

Tenho os pés assentes numa prancha. Não numa qualquer prancha. Sim, numa que se eleva a metros de altura, onde posso avistar as diferenças do horizonte. O sol parece estar mais próximo, o céu quase lhe toco e o vento, esse sopra-me na pele com a doçura de uma mão afectuosa que acarinha a alma. Mas alto ou não. Para onde? Para o abismo que se desenha lá em baixo.

Porque vim até aqui? Pelo desespero de me apaixonar e tudo sem livro de instruções.

Ela podia gostar de mim, penso eu. Mas não. Porquê? Não sei. Tentei encontrar tantas explicações, mas tudo se apaga quando ela diz: mas eu não gosto de ti, és simpático, mas nada mais. Simpatia é piedade escondida. Simpatia é ter um sorriso nos lábios só para dizer aos outros que também sorrimos. Simpatia é ironia. Já são três, as simpáticas que dizem que até pareço uma conjugação de adjetivos agradáveis, mas todos somados não dão para um beijo apaixonado. E aqui estou. Decido se salto ou não. Assim posso sentir qual a sensação de escolher entre o sim e o não. Até posso viver com a minha simplicidade de cidadão exemplar, arrumadinho, aéreo e professor dedicado. Mas não consigo viver sem companhia, viver na solidão. Anseio por um abraço, mas apenas consigo sentir-me a mim próprio, amarrado no meus braços. Beijo-me no espelho, acaricio-me no banho, e nada mais.

Salto ou não? Porra, nem para decidires essa coisa de te despenhares num simples chão de terra consegues ter uma decisão.”

Estou farto disto.

  • Vai saltar ou não?
  • Desculpe?
  • Só perguntei se salta ou não. É que eu preciso da ponta da prancha e voçê está a ocupá-la demasiado pasmado?
  • Pasmado? Eu?
  • Olha o horizonte como se fosse a ultima fronteira perante os seus olhos. Essa forma estática e vidrada nos seus olhos não mente. Suicidio?
  • ( Como é que adivinhou?)
  • Hum, já vi que sim. O silencio é outro sinal.
  • Voçê parece muito seguro do que pensa. Não será demasiada presunção?
  • Ora ai está outro sinal de tentativa de suicidio. O querer que as atenções se centrem noutra personagem. Só que entre nós existe um problema.
  • Qual?
  • Sou eu quem o criou. Fui eu quem desenhou todo o cenário, o colocou aqui na ponta da prancha, lhe colocou as duvidas sobre o fim. Fui eu quem o agonizei na alma e lhe feri o orgulho. Pode pensar que sou presunçoso, mas eu sou apenas o seu criador. Ah, e preciso da prancha.
  • Para quê? Se me criou, pode sempre me empurrar logo de uma vez.
  • Isso tirava algum suspense à cena. Ah e preciso para escrever outra história.
  • De mais um suicidio?
  • Não. Do meu sonho de ser campeão olimpico de saltos para a água. O voador das águas profundas. Vá, salte lá, que até eu já me aborreci da sua fraqueza.
  • ( ahhhhhhhh...........)
  • Agora e

E ao aproximar-me da ponta prancha, por momentos senti pena daquele homem qualquer, que tentava bracejar. Talvez não soubesse nadar. Puxa, nós os narradores temos de fazer o trabalho todo. As personagens tornam-se perguiçosas conforme a história decorre. E esta pior do que um homem qualquer, já se tornou uma personagem qualquer. Lá terei que escrever que ela se salvou e eu... Fico à espera enquanto escuto "Where the streets haver no name." Afinal somos todos um pouco de homem qualquer."

 

 

 

publicado por opoderdapalavra às 23:14
07 de Dezembro de 2014

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Mais 3 textos...Traicões.

 

  1. Filipe chega sempre a casa no momento em que o cuco do velho de relógio de parede, prenda do avô, vem cantar as 21 horas. Um quase perfecionismo pelos hábitos diários que inunda o quotidiano deste simples recepcionista de Hotel.

Mas naquele dia, o cuco não se atrasou nas 21, e Filipe abriu a porta ainda antes dos ponteiros formarem um ângulo recto. Na sala, Rui, o seu melhor amigo aconchegava o corpo de Rita, mulher há uns dez anos do simples recepcionista. O instante em que os olhos de Filipe absorveram a imagem que o sofá vermelho sustinha, fê-lo empilhar pensamentos em série. O seu cérebro parecia uma máquina calculadora a construir uma soma: Rui + abraço + Rita = caso. Houve mesmo um raiar de sangue nos capilares oculares de Filipe.

Do lado do melhor amigo, veio um cliché de expressão “não é o que te parece”, o que ainda valorizou mais a matemática do marido.

  • Porquê os teus braços no corpo da minha mulher? – questionou Filipe
  • Não te precipites nos julgamentos – Rui encontrava-se já de pé, com os nervos a tremerem-lhe nos lábios.
  • Eu só estava a lamentar-me que o nosso casamento continua perdido num poço de simplicidade, sem paixão, e – Rita deixou que o silencio pudesse ajuda-la a perceber porque é que minutos antes Rui a tentara beijar, mas sentia que tinha de dar uma explicação ao seu marido. Algo que ela própria não tinha.
  • Eu estou apaixonado pela tua mulher Filipe. Fodas, não posso esconder mais. – e saiu numa corrida desenfreada, jogando o melhor amigo no chão, e parando apenas na porta do seu carro, estacionado uns metros abaixo da casa de Filipe.

Rita deixou-se sentada no omisso que promoveu. Filipe ficou estendido no chão, olhando o tecto da sala. Os olhos agora estavam lavados, por lágrimas. Sentia o aperto em que o peito se contorcia. A cor do tecto é pérola. Não se recordava já que era essa a cor. Como não se recordava do ultimo beijo em que sentira paixão, um batimento cardíaco que quase abre todo o corpo, um tremer de pernas que faz sentir desfalecer nos sentimentos de alguém. Não se lembra dos tempos de namoro, de esconder-se para conseguir abraçar apenas a mulher que sentia amar. As recordações ficaram fechadas na simplicidade das rotinas diárias.

E o cuco veio cantar. 21 horas. O mesmo barulho que rompe sempre o mesmo silencio, o da relação que ficou parada numa estação algures no comboio do tempo passado.

 

 

 

  1. Quando se descobre que aquele a quem se clama por melhor amigo, tenta beijar à força a nossa mulher, descobre-se uma chama de raiva e angustia dentro do nosso ser. Foi o que Filipe sentiu quando se deparou com toda a cena, no corredor de casa, quando davam uma festa para amigos. Jogou-se no corpo do amigo e amassou-o com todas as forças que sentia deter. Parecia um qualquer animal indomável a desferir toda a sua raiva na presa que ficava cada vez mais inválida, jorrando sangue por todos os poros. E foram rodeados, rapidamente, por todos os outros que estavam presentes na casa. Formou-se uma espécie de arena romana, onde o gladiador aplicava golpe atrás de golpe no já frágil cadáver da vitima, do prisioneiro que pagava pelos seus pecados. O momento era acompanhado pelos gritos desenfreados e assustados de quem temia o pior dos fins, mas também pelos incentivos daqueles que ajuizavam e sentiam o mesmo apego à vingança. O chão do corredor transformou-se num rio de sangue. Filipe tinha naquele momento uma faca na mão, e não se rogou em usá-la. A mulher puxava-o para trás, com todas as forças que tinha,
  • Filipe, deixa-o, não estragues a nossa vida por causa dele... - Mas os seus ouvidos estavam fechados. Ele viu. Ele observou tudo. Ele quase sentiu a vibração da traição nas veias. Tinha de o despedaçar. Tanta confiança, construída através dos anos, para isto? É para isto que depositamos nas mãos de alguém o titulo de “melhor amigo”? Não. Rui assim que reparou em Filipe, afastou-se de Rita. Sentiu a vergonha inundá-lo. Sentia-se encurralado num beco. E sentia-se alcoolizado. Fora dominado por um sopro de impulsividade, atirando-se assim à mulher do melhor amigo. E Filipe, já conduzido pela embriaguez, despertou da sua imaginação. Pode não ser fácil deparar-se com o que viu, mas os pensamentos em que mergulhou eram funestos e famintos de uma personalidade que não se enquadra com ele. Agarrou-se à mulher e beijou-a intensamente. Rui afastou-se. Sabia que tudo acabara assim. O todo engano morria ali. Na paixão intensa de um beijo.

 

 

 

  1. Filipe e Rui saiam sempre às sextas. Era comum. Como o comum de os dois melhores amigos se encontrarem e despertarem para uma noite onde tudo era esquecido. Os problemas, as zangas, os desânimos, o desapego pela angustia. Ali só tinha lugar a paixão pelo beber, pelo rir em gargalhadas profundas, e golfadas de conversas que desviavam as atenções do que os preocupava. Era como um jogo noturno onde tudo, ou quase tudo, seria permitido.

Mas naquela noite, os shots, as travessuras com comprimidos alucinantes, e um ambiente onde os pensamentos ficavam entregues à inconsciência, eles estavam perdidos numa viagem quase tridimensional. Chegaram ao ponto onde velhos desejos veem à tona do copo.

  • Sabes o que me apetecia mesmo? – gritava Filipe no ouvido do amigo, que se ria sem que a piada existisse nas palavras. Os dois cambaleavam por entre as inúmeras pessoas da discoteca.
  • Ainda não me disseste meu – não conseguia parar de rir, rindo-se mesmo de si mesmo, do seu andar, da forma como andava de um lado para o outro, tipo barco almareado por forte ondulação.
  • Sempre tive um fetiche maluco. Sempre pensei ver alguém a roubar um beijo à minha mulher.
  • Meu, mas que raio de doideira é essa? Só um beijo? Se fosse ainda uma cama e uma ménage...- e continuava a rir-se.
  • Não, a minha vontade era de ver se a puta gostava. – e começava a formar-se um ar muito sério nas feições de Filipe.
  • Estás a chamar puta à tua mulher, meu – e quase se deitou no chão a rir-se.
  • Sim, e não é o que elas todas são? Umas putas? – Filipe deixava sair fantasmas que assolaram relacionamentos antigos. Traições, desapontamentos nas primeiras tentativas de sexualidade, e um baú de travessuras que sofrera sempre que dizia a uma miúda que gostava dela. – Tu podes-me ajudar Rui.
  • Eu? – o seu riso só era interrompido pelas palavras. – Como?
  • Tentando beijar a minha mulher e eu a ver. – Agora o riso parou. Finalmente parou. Mesmo com drogas, álcool e muita estupidez, Rui conseguiu ter um afrontamento de lucidez. Fixou o olhar na expressão do amigo. Este estava estranho e observava-o com um sorriso maroto. Agora era Filipe quem se ria, quem deixava sair um certo sarcasmo no sorriso. Os fantasmas dominavam-no, mas não só, a verdade também.
  • Como soubeste? – Rui estava agora com um ar assustado.
  • Achas que ninguém teria visto?
  • Quem foi?
  • Eu claro. – e puxou-o pelo casaco e encostou-se à sua face – estava atrás da porta e assisti a tudo. Nem ela deu conta. A puta.
  • Mas ela fugiu, não a trates assim.
  • Porque? Já te disse, são todas umas putas – e afastou-se e foi dançando pela multidão desaparecendo de Rui. Este deixou-se cair, entre milhares de pernas que dançavam. A amizade ficou ali, perdida no álcool, nas drogas e num beijo que nunca aconteceu, mas foi tentado.

 

publicado por opoderdapalavra às 23:08

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Terminei há pouco tempo, um curso de escrita criativa, com o titulo "3º WORKSHOP COLECTIVO DE STORYTELLING" com o Pedro Chagas Freitas, a quem agradeço desde já, e a todos os que participaram neste curso. Fomos a companhia uns dos outros às segundas à noite. Foi bom, de descoberta, de partilha e enriquecimento, como sempre.

Vou partilhar agora, todos os textos por mim escritos neste Workshop. Espero que gostem...

 

Primeiro texto, que vai como foi escrito...

João Ganancioso

 

Os dias atropelavam a sua vida, como enxames de pessoas a saírem de um metro em hora de ponta. Procurava uma solução para o que pensava ser o seu momento auge, e nem notava que o nascer do sol e o seu deitar aconteciam mesmo diante dos seus olhos. Estes estavam absorvidos em números e mais números, gráficos que preenchiam um rol de papéis espalhados pela secretária. Procurava ansiosamente a porta de saída.

João estava há pouco tempo na empresa. Bom curriculum, um pouco exagerado, mas mesmo assim bom. Boa apresentação, com a ajuda de um amigo, mas mesmo assim boa. Palavras decoradas dos melhores livros de entrevistas, mas bem decoradas. E um sorriso, forçado, mas era um sorriso e não uma antipatia. Com uma mente decorada pela enorme vontade de criar riqueza, sem que esforços fossem medidos, mas apenas o simples e único desejo de mostrar-se a um novo mundo. Mundo onde uma casa em Palm Beach, com o mar nos olhos, e o cheiro de maresia como despertar, o carro dos últimos que saíram em catalogo, cor vermelha, bem vistoso, e um barco na marina, para os passeios de fim de semana com o patrão.

Ser corretor de bolsa é ser uma peça num monopólio de grandes cartadas. Precisa-se ter olho, escuta ativa e muito tacto para apanhar todas as deixas de um mercado em movimento híper sónico. João já conquistou um gabinete próprio e tinha um investimento que valorizara dois dias antes, mas caira dois dias depois. Levou clientes ávidos de lucros, a investirem milhões, e agora esses mesmos estavam a perdê-los. Tinha de encontrar uma solução de valorização, senão corria o risco de lhe sair uma carta de tabuleiro, das indesejáveis.

E naquele dia, um dos muitos já perdidos no tempo, quando todos já haviam abandonado o edifício, ele recordou-se de uma carta que um colega seu teria escondida no seu jogo. Um investimento que desviava os maus resultados do seu, e traria aos seus investidores bastante fortuna. Soube dessa carta numa conversa de pausa para café e donut. Mas com escuta ativa, captou todos os contornos.

Entrou no computador do colega. Password? Previsível. Homem de família, o seu colega, tinha orgulhosamente uma foto do filho com o seu nome, num dos cantos da secretaria. Acesso conseguido. Estava de novo em jogo, e a apostar forte.

publicado por opoderdapalavra às 16:55
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