podes pensar, podes falar, mas tudo o que escrevas tem o poder de ficar.
21 de Setembro de 2013

 

 

 

 

Consegues recordar?

Consigo. Era tarde, lembras-te?

Sim, mas ainda foi possível sentir a brisa fresca a chegar e mergulhar na pela molhada.

Pois foi. Soube bem. Era como se o nosso corpo gelasse o calor que tínhamos na mente.

Os teus dedos eram mel, escorriam sensações pelo meu peito.

E os teus lábios uma mistura fel, arrepiavam-me os seios ao mesmo tempo que adocicavam-me o intimo.

As horas passaram...

Esquecemos a noite a chegar...

Nem demos pela lua...

Ou pelas gaivotas que se abrigavam no lustre da areia...

Tínhamos a vontade encrostada no ventre...

Sabíamos que tudo podia acabar ali...

E não queríamos perder um segundo...

Foi perfeito...

Não concordo.

Porque?

Perfeito seria se tudo se transformasse e perdesse o fim. Mas nada disso aconteceu.

(sorrisos)

Sorris?

Sim, porque de repente apetecia-me de novo, essa imperfeição...

Mas chove.

Então será uma nova imperfeição, agora mais regada...

publicado por opoderdapalavra às 18:24
16 de Setembro de 2013

 

Voamos sem saber, sem notar nas asas que se afrontam com os nossos longos braços. Voamos sob os telhados, rasando as janelas e as pessoas que espreitam. Voamos como se fossemos aprendizes, caindo como pequenas flechas em direção ao solo que se espalhava no fundos dos nossos olhos. Voamos como pequenos sonhadores que se perdem no horizonte, procurando a sua eterna utopia.

Mas voamos sem asas, apenas de braços abertos, caindo como flechas em direção ao rio que nos acolhe no seu leito. Voamos sem rasarmos o fôlego de ninguém, apenas sopramos na leveza do olhar de um trabalhador que se estica no corpo para nos chegar. Voamos sem sermos pássaros, mas simples pessoas que um dia viram que o horizonte apenas nos traz o sonho quebrado, mas nunca nos mente quanto à loucura de podermos um dia sermos aves que rasam o sol com a velocidade de um som, o de ser livre.

publicado por opoderdapalavra às 22:39
11 de Setembro de 2013

 

 

"

Hoje faço 12 anos, e não estou feliz.

Porque?

Porque o meu pai morreu há 12 anos, nesta precisa data.

Eu cresci e vou continuar a crescer sem pai.

Contaram-me que uns homens maus, que não gostam das outras pessoas o mataram, a ele e a muitos iguais. Não percebo nada. Porque o fizeram?

Eu apenas conheço o meu pai pelas fotos. Ele está sempre a sorrir. Nunca conheci o meu pai triste. Nunca vi o meu pai chateado. Nunca soube o que era um ralhete dele, pois eu sempre que o olho, na foto que está na minha mesa-de-cabeceira, ele está a sorrir. 

A minha tia Rose diz que ele está no céu, e eu olho todos os dias para esse céu, mas não o vejo.

Depois já me disseram que ele está com Deus. Mas porque é que ele está com outra pessoa e não comigo? Eu é que sou o seu filho e eu é que tenho saudades dele. Mas há dias li que saudades são sensações que sentimos quando não vemos alguém de quem gostamos. Eu apenas vi o meu pai numa foto, e sempre gostei dele.

Eu nunca passei um Natal com o meu pai. Apenas com a sua foto, que a sorrir, a coloco por cima da lareira, assim ele nunca terá frio.

Nunca o meu pai me levou à escola, e nunca o ouvi a contar-me uma história de dormir, como os outros meus amigos, que tem o pai deles fora da foto.

Mas sei que ele era uma pessoa feliz, porque em todas as fotos ele está sempre a sorrir.

Se ele era feliz, porque é que os homens maus vieram e o mataram?

E porque é que existem pessoas más?

A professora diz que todos somos iguais. Então se o meu pai era uma pessoa boa e está sempre a sorrir, porque é que existem pessoas que não estão a sorrir e fazem mal aos outros?

Não percebo nada das conversas do meu avô. Ele fala nos políticos, que vejo muitas vezes na Tv. Fala também muito de outro que tem um nome estranho, que um dia vi uma foto dele. Um que tinha umas roupas diferentes das minhas, com um lençol enrolado na cabeça, mas nessa foto ele também estava a sorrir e o meu avô diz que ele é o chefe dos maus. Mas se ele é o mau, porque é que sorri como o meu pai?

O meu avô fala numa guerra. Num país distante. Muito longe mesmo. Ele já me mostrou no globo que tenho no quarto, e fica mesmo muito longe essa guerra. Eu continuo a dizer-lhe que não quero saber disso, dessas coisas más, de pessoas que dizem sempre isto e aquilo, ou o que é o melhor para todos nós, e que por vezes precisamos de morrer para conseguirmos ser livres.

Mas eu só quero o meu pai de volta.

Não quero saber sobre a conversa do senhor Bush ou do senhor Obama, que aparece muitas vezes na Tv, a sorrir e a falar sobre aquelas palavras estranhas que o meu avô também diz muitas vezes, o “orgulho americano”.

Tenho um colega na escola que o seu pai também tem uma espécie de lençol na cabeça e veste todos aqueles trapos estranhos. Até a pele é mais escura do que a minha, a quem todos chamam de nomes feios e depois riem-se. Mas eu gosto dele, é um menino como eu. Dizem que o seu pai é um terrorista, é um homem mau como aqueles que mataram o meu pai, mas o menino, quando olho para ele é igual a mim. Temos a mesma altura, temos olhos, um nariz, uma boca, o cabelo é mais escuro que o meu, tem a pele também mais escura, mas é igualzinho a mim, e eu gosto dele porque não é mau. Brincamos às escondidas, atira bem ao cesto, gosta dos Knicks como eu e adora gelado. E quando o pai dele o vem buscar, sorri para ele, como o meu pai o faz para mim quando chego ao meu quarto. Mas o menino tem algo que eu não e que invejo. O seu pai abraça-o e eu continuo à espera que o meu saia da foto e venha abraçar-me ou mesmo ver os meus jogos de Basket, as peças de teatro que faço na escola, comermos gelado no senhor Burns, junto à minha escola, onde o de chocolate é óptimo.

No outro dia a minha mãe levou-me até aquele muro onde estão as fotos de todos os que morreram com o meu pai, e reparei que nas fotos, todos estão a sorrir, como o meu pai. Nesse dia levei uma flor, branca, muito bonita e coloquei junto à foto do meu pai, onde ele sorri junto a uma árvore, no Central Park, conta a minha mãe. E coloquei, junto com a flor, uma carta que lhe escrevi. 3 Páginas, e todas com a mesma frase… mas não da mesma forma que a senhora Arrows, a professora da escola, nos obriga a fazer quando erramos alguma coisa, mas sim a única frase que me apeteceu escrever ao meu pai, e repeti-la para que ele possa entender-me:

Papá, tenho muitas saudades tuas, apesar de não te conhecer, quero que voltes porque eu amo-te muito.”

in algures numa carta num mural de saudade do 11 de Setembro de 2001.
publicado por opoderdapalavra às 21:26
08 de Setembro de 2013

 

 

 

Todos os dias pensamos ter o sol nas nossas mãos. Olhamo-lo como se fosse nosso em mais um dia, em mais uma etapa que começa no seu nascer e terminará com o seu adormecer.  Em todos esses dias, procuramos ser donos de um mundo que, iludidos, detemos o máximo poder. O poder de ordenar, de julgar, de decidir, de criticar, de beijar, de abraçar, de amar, de odiar e até mesmo o poder de ignorar ou de se ser infiel.

Todos os dias tudo acontece assim. Estes desejo de sermos deus do nosso dia enfatiza-nos na demanda de sermos detentores de um tal Super poder, fora do alcance do próximo.  E assim somos todos os dias.

Acordamos no sobressalto de uma preocupação com o despertador que já tocou três vezes depois da hora estimada. O atraso provoca um melindre que nos fragiliza de imediato. No entanto, nesse mesmo momento, lá fora, o sol, ergue-se. Ouvem-se aves, o vento que teima, mais uma vez, em soprar e as árvores que repentinamente se encontram... no mesmo sitio onde ainda ontem se encontravam.

O café da manhã já viola o horário de ponta e corremos como doidas presas, tentando escapar à falta de pontualidade. Essa frágil circunstância tira-nos poder, torna o ser humano num alvo muito fácil, mas perante outro ser humano... sim, porque perante a vida, ela em nada se incomoda, pois que ponteiros são esses que por aí contam um tempo que apenas ao tempo de um pensamento humano consegue dar resposta? E assim tudo se mantém igual todos os dias.

E chega o meio do dia de sol. Ele, lá no alto, mantém-se intacto, apenas observado com espanto por alguns e nada ignorado por tantos mais. Seria por acaso trabalhoso se por um pedaço de momento, se olhasse só e se admirasse quem nos ilumina?

A noite chega e o frenesim de regresso. O stress que fomenta a dispersão de bom humor e retornam os mal dizeres, os desaguisados, as corridas às ultimas compras, os telefonemas parvos e as conversas de livrar consciências,

“Então o teu dia foi bom?”

“Sim, e o teu?”

“Também.” , e dedo no gatilho do volume de rádio, ouve-se música de fundo que passa a conversa para os fundos, e assim se vai até casa. Arrumar umas coisas, banho nos miúdos que se sujaram e podem apanhar sarna, uma palmada no rabo de um que atirou com espuma aos olhos do outro. Sopa quente, comida reaquecida, televisão acesa que sempre serve para fintar o desassossego de quem não tem mais nada para dizer, e xixi cama. Ufff, ouve-se no pensamento. Já está. Agora é só não dar muita conversa, ver a novela, inventando que a melhor parte está sempre a acontecer, lavar os dentes, um beijo seco de lábios dormentes,

“até amanhã” e quase roncar de imediato, não vá um deles querer algo mais, talvez um espécime de acasalamento animal, coisas que os antigos gostavam para tirarem prazer do amor...

e lá longe, o sol, inerte, vive, como a vida, o seu rumo, longe da ideia parva de se pensar que todos os dias alguém pensa ter o sol, o dia, e até a vida nas suas mãos... só quando acordar para dormir para sempre.

publicado por opoderdapalavra às 20:27
02 de Setembro de 2013

 

 

 

Por vezes desejava que o tempo me esquecesse

Apagasse da sua memória o meu nome, a morada onde habito,

Até  mesmo toda a lembrança de quem um dia fui

Desejava que viesse uma leve brisa de sul, e me levasse

Com todas as aves migratórias

E assim poderia criar ninhos de raízes noutro lugar

Longe dos baús que o tempo armazena no sótão do nosso pensamento

Por vezes gostava de caminhar nas ruas invisível

Sem perceberem que existe mais um

Como se de um numero todos nos tratássemos

E me deixasse estar sentado no banco dos fundos

Apenas contando as gotas que a chuva traz

Por vezes gostava de esquecer

O esquecimento é a arma dos nossos enganos

Desejamos omitir a recordação

Mas ela é como cancro que nos come o corpo

Entranha-se veemente e traz-nos a loucura

Por isso por vezes desejava deixar de ser louco

Tornar-me simples e rendido à ignorância

A mesma que me levasse a deixar de me ver em reflexo

Por vezes desejava olvidar de quem sou

Para que um dia um tempo não escrevesse o que fiz

Assim ninguém saberia quem fui

Por vezes penso que ficar no sabor do incógnito

Será a melhor maneira de se ser realmente vivo.

 

publicado por opoderdapalavra às 20:51
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Leitura muito agradável :)Convido a leitura do meu...
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