podes pensar, podes falar, mas tudo o que escrevas tem o poder de ficar.
30 de Setembro de 2010

 

 

Aqueles lábios que falam
Parados no instante
Escrevem o sentido de sentir
Mexer com o coração que bate
Ritmado pela saliva que se cola
É o doce sabor de um encosto
Momento em que o tempo para
Fica estático no fogo que incendeia as almas
Lugar onde se escondem as paixões
Desejos que deambulam por entre tremores
Esses medos que deslavam a caricia
Mas estes lábios trazem a paz
Transformam a mentira no dia
E a noite na Verdade
Eles adormecem os olhos
E apontam os sonhos
Deriva-se entre dois lados
Duas fronteiras onde nos dividimos
O querer e o pensamento 
O querer de um mergulho 
Uma descida a uma escuridão tão reluzente
Que pensamos estar noutra dimensão
Noutro mundo sem parente
O pensamento da viagem que talvez nunca volte
Dessa travessia onde se questiona
Onde a interrogação de um segundo
Pode nos separar de um futuro
Saudades daqueles lábios
é navegar por entre as sombras das imagens
Das fotos que trespassam o coração
Sitio onde escondemos os sentimentos
Os mesmos que nos levam a dividir o beijo
A meio, com a metade do nosso ser
E a parte daquele que queremos 
Que nos faz impelir sorrisos desmesurados
Insurrectos na quantidade
Esses rasgares de boca que nos conduzem
Até ao topo da montanha que nos abraça
Com os braços do mesmo que nos beijou
E ali sentimos que as prisões são de papel
Pois do simples beijo vêm as estações 
Os tempos que determinam o rumo
O caminho por onde vamos seguir
Juntos, sempre de lábios colados
Como gémeos que distantes
Se tocam no silencio da ausencia
A paixão daquele beijo traz o sentido
A orientação para o que os astros nos falam
Estrelas que descem até ao fundo do poço
E o preenchem com respostas
Frases que nos atiram para a beleza do nosso destino
Traço anunciado que a Vida decidiu
Apenas por um beijo
não por apenas
mas mais pela paixão de se sentir 
e nunca se poder fugir
simplesmente ao que se sente.

publicado por opoderdapalavra às 20:29
28 de Setembro de 2010

 

 

Apetece-me o sonho
Assim poderei fugir
Da realidade que me afoga
Poderei sacudir as costas apunhaladas
O ventre desfigurado
Quero o sonho pelo sentir
Aquele que voa na ponta da asa
O que desliza pela escama do peixe
Aquele que se perde na nebulosa
O que a estrela desenhou
Quero o sonho
Mas não quero um qualquer
Quero aquele que me traz a imagem
O som de um desejo
Os dedos que se afunilam
A pele que se deleita
Quero o sonho
Aquele em que um dia foi memória
Mas tornou-se apenas uma bóia
A que me salvou da tempestade
Dos ventos e dos trovões
Quero o sonho
Pois o que vivo parece demasiado
Sou pequeno para tanto
Esmagado pelos dias
Despido pelas noites
Quero o sonho
Pois serei apenas o que for
Navegador ou mesmo príncipe
Do teu sonho
Aquele em que fomos apenas o sonhar
O sentido utopico de sermos felizes

publicado por opoderdapalavra às 20:58
27 de Setembro de 2010

 

 

Quero o silêncio
O fim das palavras
A ausência das vozes
Quero o terminar das frases
O som que morre
O ruido que acaba
Quero ficar sem escutar
Deixar-me estar no vazio 
Onde apenas possa ver-te
Olhar-te como a luz que vem pela manha
Sentir-te como a lua que abraça a noite
Sem que as falas nos perturbem
Eu possa abraçar a tua imagem
Essa cor que ultrapassa o som
Essa beleza que inunda o oceano
Quero ficar aqui, na virtude do tempo
Neste destino que me calou
Mas neste caminho que me cruzou
Que me esbarrou no teu encontro
E me deixou sem conversa
e sem escrita, nos dedos que se fecharam
Agora estou na escuridão
No negro onde apenas te sinto
e onde já não existe
A própria existência do meu pensamento
Pois no silêncio
no calar
Fico
Sonhando contigo
Assim
Sem pensar.

publicado por opoderdapalavra às 23:47
15 de Setembro de 2010

 

 

Sento-me à beira rio. As águas estão serenas, com um toque cálido, onde coloco os meus pés. Envolvida pelas árvores poliglotas, desde os castanheiros, eucaliptos, pinheiros e outros tantos, pego no caderno e no lápis e começo a escrevinhar:

“Estava a moça diante da noite, quando foi confrontada com a pergunta:

- Porque me procuras?

- Preciso dos teus conselhos...

- Que conselhos, minha filha?

- Preciso de saber como poderei controlar o mundo.

- E porque desejas controlar o mundo?

- Para que ele possa ser melhor. Estou triste de tanta guerra, de tanto ódio, estou devastada com tanta fome, tantas crianças sem sorrisos, tantas mulheres sem nome e tantos homens sem uma lágrima. Estou cansada de tantos gritos por dinheiro, tantos buracos pelo rio que se veste de negro, tantos tiros perdidos, bombas odiadas. Preciso de pintar o mundo de cor, de o tirar do preto e branco em que está mergulhado.

- Hum... pedes-me o impossível, sabes disso.

- Como te posso pedir o impossível? Tu és negra e no entanto és tão brilhante, tão reluzente, os amantes adoram-te, os empregados cansados veneram-te, és o descanso do dia, é a amante do sol, e consegues isso mesmo, sendo escura. Se o consegues, porque me dizes que é impossível a minha demanda?

A noite ficou por momentos retida no silencio. nem as estrelas, nem a lua conseguiam amadurecer pensamentos válidos para responderem a esta análise. A noite tentou dar-lhe uma resposta, um pouco engasgada:

- Sabes, minha filha, o mundo tem de ser assim, não o consegues nunca mudar, ele é o resultado de muitos males. O homem assim o construiu e agora só exterminando o homem seria possível devolver as cores a tudo.

A menina ficou agora ela pensativa, mas a sua audácia era ainda maior:

- Então diz-me como devo exterminá-lo.

- Quem?

- O Homem, claro.

A surpresa da noite era de um espanto que nem os morcegos conseguiam voar no seu leito. Estava colada nas palavras da menina.

- Mas... se o exterminares vais ser igual a ele, e tens de te exterminar também.

- Mas eu já o fui...

- Já o foste?

- Sim. Os sítios onde gostava de brincar foram substituídos por estradas, as horas em que eu adorava sair à rua foram aniquilados pelo medo de eu sair, a sala dos brinquedos na minha casa foi  suprimida pela maior das televisões, a escola onde eu gostava de aprender foi alterada para uma prisão de filhos...

- Mas isso é a evolução dos tempos...

- Que tempos? Agora nas estradas morrem os que amo, na rua para onde eu saia são raptados os que com quem eu brincava, da televisão que substituiu os meus brinquedos saem noticias de guerras, de mortes, de fome, de dor, de crimes, e a escola onde aprendia agora é o refugio ideal para os pais dos meninos despejarem os filhos que não desejaram, apenas os quiseram para cumprirem calendário.

A noite ficava cada vez mais sem respostas para a menina. Afinal começava, a noite, também a sentir que o Homem e a sua evolução está cada vez mais saturada. Teve a ideia de lhe propor um sonho:

- Olha, gostas de sonhar?

- Sim, adoro. Mas não tenho conseguido.

- Então?

- Tenho pesadelos com os meninos de África a pedirem-me o pão que não tenho, ou os meninos das guerras a pedirem-me a mão que não consigo estender...

- Mas quero-te propor um sonho diferente. Estás interessada?

- Sim, diz-me.

- Fecha os olhos. Isso. Agora imagina um lugar onde sintas o cheiro da terra. Olha em volta e vê as flores que saem dessa terra. As suas cores, o branco dos malmequeres, os amarelos dos girassóis, os vermelhos das rosas. Vê como elas estão lindas, cheias de um perfume indescritível. Agora imagina as árvores, todas com um verde intenso, cheias de galhos enormes e que te vem abraçar, como braços amigos. Olha os animais que se aproximam, parece uma arca de Noé, cheia de todas as raças. Olha os cães e os gatos que se agarram ao teu corpo, e o tigre, a águia que pousa no teu ombro, o cavalo que se aproxima e te olha docemente, o mesmo o panda que se senta ao teu colo. E olha o céu. Vês o azul que ele é. Tão bonito, com aquela bola enorme no seu centro, um bola de fogo, cheia de um calor próprio, que te faz sentir viva, cheia de força, de alegria. Consegues sonhar com tudo isso?

- Sim, e é tão bom. Posso viver ali?

- Podes. – e a noite sorriu.

- Eu quero viver ali, porque tudo tinha cor, tudo era tão sereno e viviam todos em harmonia. E sabes, tu não me disseste, mas vi crianças...

- Viste?

- Sim, e sorriam, brincavam e saltavam, estavam livres das guerras, vi um sem as amarras, corria descalço, mas brincava com as flores e as borboletas que esvoaçavam. Havia outro sem fome, que comia as bagas e sorria com uns bigodes enormes, de seguida saiu correndo com um tigre e estavam felizes. Junto das árvores, crianças que já não são abusadas trepavam os troncos e jogavam às escondidas sem medo das sombras. Naquele lugar não há televisão com noticias feias, nem consolas com jogos de guerra, não há homens maus a roubarem ou a matarem com carros, não havia estradas, nem o perigo de andarmos na rua. Vi crianças sem instrução atentas num pequeno grupo de alunos, sentados numa roda, no chão, a escutarem uma criança que sabia ler, desfolhando as histórias de um livro tão bonito.

A noite ficou rendida ao sonho da menina. Tão rendida que começou a lacrimejar umas gotas de chuva, com a alegria estampada na via láctea e no seu coração mais próximo, a lua. E foi quando a menina ainda lhe disse:

- Obrigado noite, obrigado pelo teu conselho para tornar o mundo ainda melhor.

- O meu conselho...- estava agora um pouco perdida.

- Sim, já sei como posso fazer com que o mundo seja melhor, todos os dias.

- Então?

- Sonhando. O sonho é de facto o que nos pode salvar e fazer acreditar que com o sonho não podemos mudar o mundo, mas podemos mudar a nossa visão do mundo. E passando o sonho aos outros eles também poderão fazê-lo e podemos ir construindo um mundo melhor. Sonhando.

- Ora, agora foste tu que me deste uma lição...afinal basta seguirmos os nossos sonhos, não é, menina....desculpa, mas não fixei o teu nome?

- Sininho. O meu nome é Sininho.

- Sabes que és muito Especial, Sininho?

- Obrigado, mas tenho já um sonho.

- E qual é Sininho?

- Fazer com todos sejam Especiais.

- És a minha heroína.

A noite sorriu com Sininho e ficaram as duas abraçadas pelas horas fora, até que o dia veio acordá-las.”

 

- Sininho, amor, vamos embora?

- Já vou.

Tirei os pés da água. Refrescou-me neste dia tão quente. Tenho de ir. Tenho um sonho Querido à minha espera, um sonho que também já mudou o meu mundo, através dos sonhos. Ele sonhava comigo e eu sonhava em ser feliz.

Afinal o poeta sempre teve razão, o sonho comanda a vida. Não podemos mudar o mundo, mas podemos mudar o nosso mundo, mas se não sonharmos nunca vamos mudar nada.

 

 

Nesta casa eu madruguei sonâmbula

Havia raios de sol quando entrei nela

Havia elfos e duendes, gelados e doces

Sentada numa cadeira de balanço

Estava a noite, dormindo com o sonho nos olhos

Fiquei no silencio dos passos

Queria resplandecer a manhã

Gigantesca frescura que me recebeu com gnomos

Sinos que batiam na entrada

Chamando os anjos dos meus contos

Pela frincha espreitei e vi a sala

A bagunça que o mundo mexia

A porta fechada separava-me daquela lixeira

Estava fada, sem madrinha, só naquele alpendre

Onde os átomos do entusiasmo mexiam me mim

Queria limpar a sujidade do compartimento

Queria transformar numa fábula a fantasia

Ser heroína dos fracos e amiga dos fortes

Queria apenas a história que se conta por pequena

A Alice que no pais maravilhado

Ficou encantada e assim o tornou mais perfumado

E com a varinha de condão

Agarrada à minha mão

Uns pós perlimpimpim

E o mundo virou assim

Um simples sonho de criança

Qual cor e doçura que alguém pensou

E todos se riram e saltaram

Onde a vida

Apenas é a porta de entrada e saída

E onde apenas os duendes nos dão uma oportunidade

De vivermos, como anjos.

 

Ass. Sininho.

publicado por opoderdapalavra às 18:40
08 de Setembro de 2010

No Talmude vem um escrito que diz: “ A Difamação é um pecado tão grave quanto a idolatria, o incesto e o assassínio.” E no Talmude de Jerusalém ainda refere que :” O caluniador assemelha-se a uma serpente: Faz mal sem disso tirar partido.”

Durante a ultima semana fui observando  um circo montado à volta do caso da Casa Pia. Mas falo do circo social, do circo em que o cidadão anónimo é a figura central. O circo mediático é apenas mais uma circunstância do que outra coisa. Este caso tem sido das melhores refeições servidas aos órgãos de comunicação social, que se gladiam por uma qualquer acção que lhes dê visão e audiências. As guerras das televisões é apenas um fait diver dos dias de hoje. Só suporta isso que quiser.

Mas é do povo comum que eu quero falar e escrever. Do que escreveu apressadamente no Facebook sobre a sua forma de ver as condenações, ou quis se reunir no café com meia dúzia de conhecidos e outros tantos desconhecidos, os que pararam reuniões de trabalho para discutirem ideias, pontos de vista que foram esmiuçados até ao tutano da questão. Aos que apontaram o dedo, aos que não sabem que dedo apontar ou mesmo aos que pensam que estão de fora.

Foram dias a fio, a ver o quanto as pessoas jogam pedras sobre os vidros estilhaçados de si mesmas. Este caso é uma enorme lição para todos e todos devemos tirar sim as verdadeiras lições dele:

1-    Lição de Estado de Direito – um Estado que se diz democrático e livre, não pode conviver com uma justiça lenta e morosa, quase parada. Precisamos de um sistema judicial célere, rápido nas decisões e prontificado nas acções. Precisamos de uma verdadeira justiça, não verdadeira no ponto de vista de ser perfeita, pura, pois essa é utópica, mas sim uma verdadeira justiça no quadrante de estar pronta a dar uma resposta às inseguranças, desmontar as mentiras, atacar os cartéis de interesses, reinventar os valores humanos e sociais, abandonar as duvidas. Esta sim é a Verdadeira Justiça, feita por homens, feita por pessoas, sabedoras de um principio básico da justiça e primordial: errar não é ser cego.

2-    Lição Humana – Não precisamos de uma leitura de acórdão para vermos que mesmo antes de condenados, os arguidos, todos, já estão presos. Presos a uma imagem, presos a um conceito, presos a um perfil. Mas não são os únicos. As vitimas também elas estão presas, ao passado, às marcas, feridas não saradas, ódios, vontades de vingança. E os juízes também estão presos, ao peso do caso, da história que se contará, das famílias que os olham, dos políticos que os pressionam, das imagens que se criam. Os advogados serão os únicos que estão em liberdade, porque hoje defendem ou atacam e amanhã nunca serão eles os recordados. Acreditem que as grades das prisões que falo, são bem mais pesadas que as de ferro. E esta prisão não desaparece, carrega-se. E estão presos todos os que se deixaram envolver emocionalmente por este caso, tomando partidos e facções, sem conhecerem os dados, sem terem certezas e fazendo julgamentos gratuitos e fora de contexto. A consciência pode ser a porta da liberdade como a porta da pior das jaulas.

3-    Lição Social – Li esta semana um artigo fabuloso de Rui Tavares no Jornal Publico. Ele escrevia que todos falhamos neste caso, e eu concordo, porque sempre que existe um crime, ele deve-se ao falhanço de uma sociedade. É fácil pensarmos que não temos nada a ver com este caso, mas ele acontece porque a sociedade é um antro de preconceitos, de barreiras, obstáculos culturais que levam à criação de monstros, mas que não deixam de ser humanos. Hitler era um ser humano, não era mais ou menos constituído fisiologicamente que todos nós. Um pedófilo é um ser humano. Mas dirão que são monstros, concordo, mas são-no porque fomos todos nós que os construímos. Quando existe um mal, não pode ser aparando a copa da árvore que esse mal vai sucumbir. É cortando a raiz, tratando que ela não se alastre. E nós não fazemos o tratamento da origem. Apenas nos sentamos, com o copo de cerveja na mão, o tremoço na outra, e com o sangue a cair pelos dentes, esperamos a queda do próximo, vendo-o esmagar-se contra a sua própria ruína. E assim se criam os monstros. Todos falhamos porque todos pertencemos a uma sociedade, um grupo de pessoas que vivem dentro da mesmo Gaiola. Este caso aconteceu porque o estigma do abandonado, do socialmente fraco, do desprotegido levou uma cultura a esconde-los numa sombra, numa escuridão onde a falta de luz os deixou à mercê dos monstros. Monstros que tem um passado, por vezes marcado por violências, por violações prematuras, por um desequilíbrio emocional mal entendido, e que se revela em situações como a pedofilia e outras mais. Não estou aqui a desculpar os malfeitores, nem os culpados, porque quem o é, deve pagar por isso. Mas estou aqui para assumir a minha culpa como cidadão, como parte do preconceito absurdo de não encarar o mal de frente, para se poder combate-lo. A minha culpa como parte de uma sociedade estigmatizada em fantasmas, baseada numa cultura mesquinha e arruinada pela ânsia desmesurada do gratuito julgamento do próximo, nunca de si mesma, apenas do próximo. É mais fácil ver no olho do outro, a mosca que incomoda o nosso.

 

Não sou advogado do Diabo. Sou apenas o culpado do acaso. E sou a vitima do meu pensamento.

Pensem muito bem no que dizem e no que escrevem. A vida está sempre a julgar-nos e essa justiça é a mais real de todas. Tenham cuidado com as pedras que atiram, elas sempre podem voltar na vossa direcção. Todos somos normais até ao dia em que o deixamos de  ser.

E aprendam com as lições.

 

publicado por opoderdapalavra às 23:55
06 de Setembro de 2010

Dia 6.

A noite trouxe um silêncio absoluto. Por vezes pensamos que este som , o silencio absoluto, é uma utopia, mas não, estava aqui e agora. Como o tempo. Nas sociedades modernas, perdemos o seu controle, a sua dimensão, mas neste lugar, algures perdidos entre o amasso das montanhas, somos confrontados com a existência real do tempo, que passa numa toada serena e descomprometida com a essência dos nossos pensamentos. Aqui vive-se, sente-se que somos parte de algo, não estamos perdidos na selva humana. Com a manhã veio o cheiro. Aquele cheiro que imaginamos existir. Aquele odor tão suave mas penetrante, que nos refresca o corpo com a sensação de levitação da nossa alma. O pequeno almoço, agora servido livre das paredes da tenda, olhando o infinito, o horizonte que se perdia no ínfimo do nosso olhar.

Os primeiros passos, sempre a descer foram feitos debaixo de uma certa ansiedade do meu ser. Continuava nesta demanda inesperada de auto-controle, qual jaula que despoletou dentro de mim, talvez aprisionada há muito e a necessitar de ser exorcizada. Encontramos um casal de ingleses, perdidos na orientação e na água. Aqui todos somos filhos da montanha, da mesma mãe. Disponibilizamos água, e umas pastilhas para que pudessem reabastecer assim que fosse possível, mas sempre haveria a Fanta aos 3600m. Depois de nos confrontarmos com o cascalho do terreno, as nossas passadas estavam cada vez mais lentas, cuidadas, espontaneamente pensadas, para podermos observar o quanto belo era o envolvente. Uma cascata nasceu nos nossos olhos. A sua queda majestosa, mas ao mesmo tempo, alheada de nós, era uma bela foto, um lugar onde o paraíso começava a desenhar-se, como aquele onde as arvores começavam a receber-nos com as suas cores, os seus odores. Os abrigos dos pastores, onde pudemos abraçar uma cabrita recém-nascida. A aldeia começava a aproximar-se. Sentíamos o seu batimento. Tizi Ossean. As pessoas. As crianças. A menina pequena, com o ranho no nariz, o olhar espantado para alguém que media mais do dobro dela, o pensamento perdido, a corrida rápida e o sorriso sincero. Sim, aqui o sorriso é sincero. Não se sente a hipocrisia dos dias. Não sentimos o cinismo das cidades. Aqui sente-se a Vida. os miúdos que brincam com uma pequena bola de ténis, num campo improvisado, qual estádio onde a multidão vibra com as jogadas e as risadas dos pequenos, que felizes por serem ignorantes do mundo exterior, divertem-se na pureza do momento. As pessoas passavam e cumprimentavam. Dizendo um olá. Acenando um cumprimento verdadeiro. Os sorrisos. Não me canso com eles, pois ainda os tenho na mente, e por mais que queira, não consigo eu próprio imitá-los. Os nossos tem tudo mas não fazem nada, eles não tinham nada e faziam tudo.

Mas com a aldeia veio o rio, a água, esse bem tão precioso e tão esquecido. O banho, nas frias águas e gélidas, mas tão refrescantes quanto libertadoras. Sinto mesmo o exorcismo dos meus ignóbeis pesadelos. Tenho o corpo cheio de vida, de esperanças, de vitalidade. Lavamos as roupas como a musica da Beatriz Costa, e fomos brindados com alguns aldeões Sábios que partilharam connosco a sua Sábia visão da vida. O jardineiro das árvores foi absolutamente majestoso, nas nossas vidas temos de saber regar as árvores do nosso percurso.

Veio mais uma noite e veio uma conversa incrível com o nosso guia. Aqui deixo hoje uma foto dele, quero que a observem, e por momentos fechem os olhos e imaginem um Homem Verdadeiramente Livre, e vão ver o Ahemed. Falou-nos da vida, do passado que já não interessa, apenas é uma lição. Do futuro que virá, mas não é o primordial. Primordial é o presente, que vai passando e nós o vamos perdendo, perdidos entre o que vivemos e o que vamos viver. Falou-nos do amor pela fé, naquilo que é o acreditar de um ser, que não quer saber o que os outros acreditam, apenas sabe que o melhor para si é aquela crença. No amor pelos outros e os outros por nós, quando tomamos uma decisão e se esta nos provoca dor, essa dor irradia-se a todos os que amamos, logo devemos ter atenção, porque somos responsáveis pelo amor que os outros sentem por nós.

E depois veio o sono. E dormimos. Descansados. Libertos.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Dia 7.

Veio a manhã. O ultimo dia a caminhar. Não vou perder-me em ultimas descrições. Apenas vos conto que encontramos uma criança que precisava de cuidados médicos. Deixamos medicamento. Mas o seu olhar, o seu corpo franzino, a sua pele encrostada, está-me na memoria. Fiquei ali, naquela aldeia. E ainda lá estou, nas coisas óptimas, mas nas menos boas também. Mas estou na montanha, estou nas pedras, na terra, nos corações das pessoas e dos animais que nos receberam. Estou nas árvores e na água. Estou nos cheiros e no silencio. Estou e fiquei lá. Mesmo no descanso do final, fiquei onde pertenço, perdido nas memorias serenas desta caminhada que representou uma magnifica experiencia, mas também um momento de grande esplendor, sim, porque o esplendor da vida é a todo o momento.

Vivam, mas deixem também viver.

Até breve.

Obrigado Atlas, Toubkal , Tizi Ossean, Ahemed e todos os habitantes das aldeias e cidades, pássaros, arvores, animais, caminhantes, mulas, crianças, pedras e ribeiros, a todos o Meu mais Sincero Obrigado por me terem recebido na Vossa Casa.

Fim

 

 

 

 

 

E Aqui descansamos, não interessando o cansaço do corpo.

Até à próxima.

 

 

publicado por opoderdapalavra às 23:25
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