podes pensar, podes falar, mas tudo o que escrevas tem o poder de ficar.
31 de Agosto de 2010

Dia 3.

O acordar é sempre aquele momento de renascer, de despertar para uma nova vida, um novo momento, uma nova oportunidade. Depois de mergulhados num coma sonolento, durante as horas que desenharam a noite, abrimos os olhos com o nervosismo na retina. Queríamos, desejávamos, ansiávamos em descobrir se a aventura do dia anterior fora mesmo real. E foi. Atrasamos um dia. Mas, a tal mensagem que parecia tomar forma, começava a falar-nos, a dizer-nos que estava tudo sob um controle remoto, uma força que nos empurrava para um sentido lógico. As pernas estavam preparadas. As mochilas idem. As roupas, as botas, os pensamentos, as mãos, as camisolas ou polares para os mais receosos ao frio, tudo estava preparado e pronto para darmos inicio. A manhã surgiu clara, com o sol a pontificar no mar azul de um céu que tentava arranjar espaço por entre as inúmeras montanhas que nos cercavam. Um pequeno almoço repleto de entusiasmo, de algumas risadas espontâneas e de um fulgor arrasador. Saímos em passo curto, com o sangue a ferver dentro dos nosso corpos. Queríamos subitamente saber tudo, ver tudo, absorver tudo. Mas é impossível fazê-lo. E logo nos detivemos nessa verdade. Por cada passo que dávamos perdíamos algo, algo que ficava nas nossas costas, no nosso passado, e que talvez pudesse ter feito parte desta história. Mas isto acontecia porque começávamos a constatar uma quase infinita rede de sensações. As pessoas que cruzávamos, as mulas que carregavam, as casas, os ribeiros, os caminhos, as árvores, as pedras, os sentidos, o ar, a terra, os cheiros, as conversas, o silencio, as historias...

O grupo definia-se pelas personalidades diversificadas. Colamos algumas “alcunhas”, desde uma má circulação sempre pronta na resposta, um ranger “mafiosi”, um traumatologista bem disposto, um jornalista desesperado por um cigarro, uma psicóloga que a cada passo se questionava, e um físico sempre moreno, nunca vermelho. Todos guiados por um homem singular. Um guia em jejum, mas apenas de comida, pois atravessou os dias com uma fé invejável, um dom soberbo e exemplar, onde misturava o silencio com pequenos rasgos de sabedoria.

Subimos. Sempre a escalar a montanha, que nos dava um som único. As suas palavras eram esmagadoras ao ponto de ficarmos absortos com a sua dimensão. Cruzamos pessoas únicas. Garrafas de Fanta Orange ( talvez quase bebida nacional, juntamente com o eterno chá de Hortelã), cabras a viajarem em primeira classe ( quem sabe... já diz o povo... sabe), pessoas que adoravam uma pedra branca, símbolo muçulmano de crença em procriação humana. Repousávamos algumas vezes, para água, ou para umas barras energéticas, ou para uns sumos de laranja naturais ( deliciosos), ou mesmo para comermos uns frutos secos. Mas paramos também para o almoço, qual manjar servido entre os 2000 e os 3000m de altitude. Começávamos a pensar que afinal tudo isto era mesmo real.

Mas o real tornou-se perigoso. Um dos irmãos do grupo, um companheiro, um membro daquela nossa fraternidade montanhês, num pequeno descuido, sofreu uma fractura. A baixa deixou-nos apreensivos, pensativos, algo nervosos. O dilúvio, agora esta baixa, seria prenúncios de negativos súbitos? A sorte da proximidade de uma mula, esse transporte magnifico por estas bandas, ajudou a levar para o acampamento, a 3270m de altitude. Chagamos a um vale que recebia no seu leito um abrigo de montanha francês. O acampamento base do Toubkal. Aqui as culturas eram diversas, as línguas multiplicavam-se. Olhávamos em redor e éramos desde logo sufocados pelo erguer de cumes sublimes e elevados. Soavam no ar os sons de vários corvos, ou mesmo a forte enxurrada de um ribeiro vizinho. Jantamos, à luz de velas, um banquete servido com humildade, com a atenção de um chefe cuidado. E sorriamos. Soltamos gritos de união. Sentíamos o propósito de nos termos encontrado ali, naquele lugar, daquela maneira. Escrevíamos os nossos nomes na vida do próximo, trocávamos pequenas historias, sorrisos, abraços, carinhos momentâneos mas eternos, enfim, estávamos fortes, crentes numa frase e num propósito:” A União faz a força.”

Mas era chagada a hora de repousar. Encrostados na diversidade e quantidade única de roupas, aconchegámo-nos nas tendas, em busca de uma temperatura mais cómoda do que o frio intenso que a noite nos tinha trazido. Humidade quanto baste. Mas era noite. Nevoeiro. Silencio. Montanha e silencio.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Dia 4.

Acordamos com frio na pele. Estranhamos a temperatura. Verão em Portugal e agora sentimos que estamos frágeis aos olhos do dia. As despedidas de um dos irmão do grupo torna-se pensativa, pois ficamos ainda apreensivos por ele e por nós. O que nos espera afinal? Vamos começar a caminhada em direcção ao sol, ao céu, ao tecto que se abate nas nossas cabeças, vamos caminhar para o desconhecido. Serão 1000m sempre a subir. Assim que fazemos a primeira meia hora, logo nos apercebemos que o dia não será fácil. A visão imensa sobre o refugio deixa-nos perplexos. Sinto a vertigem da fragilidade perante tamanha migalha que é o meu corpo. O silêncio continua a ser o som que escutamos. Fomos o ultimo grupo que partiu do refugio. Uns já desciam quando nos cruzamos, eles cheios de vitalidade, enquanto nós começávamos a sentir a ausência do oxigénio, esse presente que a natureza nos oferece assim que somos concebidos e todos os dias o esquecemos. O grupo torna-se lento, enquanto vamos ficando deslumbrados com o vale, as pedras que se tornam infinitas, as conversas dos que passam, a desorientação dos nossos receios. O calor substitui o frio. Agora sentimos a necessidade de tirar de nós a roupa que carregamos enquanto tínhamos o arrepio da humidade. E chegamos aos 4000m. Aqui eu padeci. A cabeça estava carente de oxigénio. As pernas tremiam. Sentia que não podia fazer esperar aqueles, que heroicamente, subsistiam ao sofrimento da subida. Deixei-os ir. A minha visão fixou-se no guia. Que homem único, sem nunca me cansar de o repetir, pois enquanto eu desidratava por falta desse outro bem essencial e tão esquecido, a água, ele mantinha-se firme, forte e ciente da sua crença, do seu jejum. Magnifico. Olhei em volta, e fiquei pasmado com a imensidão do Atlas. A distancia do meu olhar perdia-se no infinito desta cadeia de montanhas que circundam a minha existência. Fiquei absorto. Fiquei rendido. E veio a voz. Aquela voz interior que me dizia e falava sobre as pessoas, sobre a vida, sobre a essência. E nesse momento tive sede, o meu ser precisava de beber. Mas a inexistência desse liquido fez-me descer. Mas fui deixando recados, pequenos papeis escritos para os heróis do Toubkal, que foram aos 4167m de altitude. No caminho, feito na solidão de mim mesmo, a voz não me abandonou. Foi-me dizendo, enquanto os meus olhos banhavam-se em lágrimas, os segredos, o percurso dos meus medos, das gaiolas que teimo em armar dentro de mim, foi-me dizendo que afinal o meu nome é apenas um ponto na ínfima existência da Vida. O meu ego destruía-se a cada passo. Ficava esmagado, entalado no meio dos pensamentos.

Campo base. Espera. Cansaço. Refrescar a pele. E espera. Esperava pelo grupo. Fiquei parado durante quase 2 horas até vê-los de novo. Vinham exaustos, mas felizes. Descansados pelos bilhetes que encontraram, sabendo que eu não estaria mal. Eu dei-lhes a boa nova de que o irmão fracturado afinal não estava tão mal quanto chegamos todos a temer. Ficamos felizes. Estávamos felizes. Mais uma etapa. Almoço. Outro manjar. Descanso. Repouso para recuperar as forças. A noite chegou. Um homem abordou-me. Francês. Falamos de tudo, das paixões, das montanhas, das pessoas, da vida e descobrimos que ambos escrevemos. Que conversa, que momento. A delicia da linguagem perde-se no tempo, esse relógio que continua parado por estas bandas, onde sentimos que apenas podemos viver intensamente cada segundo que vivemos.

A hora de dormir chegou. Os olhos fecharam-se. Amanhã chega outro dia. Amanhã outra etapa. E dizemos boa noite.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Dia 5.

Durante dias os nossos corpos mal sentiram a frescura de um banho. Estamos habituados a acordar em nossas casas com a água a escorrer pela nossa pele, mas aqui a única coisa que escorre é mesmo o desejo de prosseguir, de descobrir, de sentir. Difícil é abstrairmo-nos do que nos rodeia, aliás é impossível.

O pequeno almoço, sempre igual, mas sempre delicioso, pelas conversas, pela troca de ideias, pela ansiedade do desconhecido.

Caminhamos, subindo 400m, por carreiros de pedra solta, com os músculos a serem colocados à prova de uma resistência ímpar. Comecei outra batalha. A minha visão perturba-me a alma. Um medo de pequeno. Vertigens. Ao longo dos anos fui combatendo-as e conseguindo vitórias improváveis. E aqui sabia que iria conseguir outra. É uma das tais gaiolas que pensamos não existirem, até elas nos enclausurarem no nosso intimo. Mas eu não podia dizer nada a nenhum deles, não pelo lado da fraqueza, porque fracos somos todos, mas porque o grupo precisava da minha estabilidade. E eu precisava da estabilidade deles. É esta a força de um grupo. A confiança, o sabermos que todos são necessários e todos são fundamentais para todos podermos atingir juntos o nosso objectivo. E caminhei, sempre controlando o meu ser. Mas o estado de viver e experienciar o cada passo que dava era também superior a todos os receios que possam assolar-nos. A subida foi intensa, debaixo de um sol que cortava-nos de suor, de um banho de água que íamos sentindo a necessidade de hidratar. E aos 3600m de altitude dá-se a surpresa das surpresas. No meio do nada, o sitio onde o abismo se encontra com o abismo, um outro homem singular, sozinho no seu mundo, vendia Fanta e Coca-cola. Que momento. Afinal a vida surpreende-nos a cada momento. Depois de olharmos os contrafortes do Toubkal, onde o Vale arrebatava os nossos pensamentos, este local, a frescura de um refrigerante que parecia uma quase salvação. A descida esperava-nos, até ao acampamento. Mas antes havíamos testemunhado um outro fenómeno, o das mulas. Nós cansados, exaustos, vertiginoso ou pensativo, e um animal que carregava uma inúmera multiplicação de peso a mais do que nós, sem se queixar, sem pedir nada em troca, fazia o mesmo caminho, mas em metade do tempo. Mula não é um nome feio, é um elogio. Que fique aqui registado.

A descida foi feita por um desfiladeiro, onde as pedras deslizaram e formaram um amontoado, onde 80 e tal curvas foram contadas, e onde a pique descemos até aos 3000m, sitio onde as tendas já nos esperavam. Um local único, como todos, como tudo o que nós sempre fomos vivendo e sentindo. Mas aqui estávamos sós. E o tempo era ainda mais parado. Um pequeno ribeiro que ajudou a uma limpeza mais localizada, mas com uma água fresca e deliciosa. E vieram os outros convidados. Os rebanhos de cabras que todos os dias sobem e ao final do dia descem. Acompanhados pelos seus fieis cães e pastores, elas ecoavam pelos montes e montanhas adjacentes. Era o som que latia como uma melodia. Os nossos olhos perdiam-se no horizonte, nos rebanhos, na cordilheira, na criança que participava da caravana, nas mulas, na lua, no sol. Mas perderam-se por momentos num daqueles segundos que transcendem a essência, o nascimento, a vida a acontecer. Uma cabra deu à luz, mesmo perto de nós, à luz de um dia que já adormecia. Fenómenos que deslumbravam o nosso espírito.

Mais um jantar, banquete, conversas, troca de ideias, partilha de sentimentos. O grupo estava mais unido, forte  e seguro. E mesmo que o cansaço estivesse um pouco presente ou o pó do dia, os sorrisos eram cada vez mais sinceros e maravilhados.

Dormir. Na solidão do silencio, mas na companhia de um céu que caia sobre nós, pesado de tantas estrelas. Aquela noite era nossa, só nossa. Tínhamos de a desfrutar e de a conservar, só nos nossos corações.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Continua.

 

 

publicado por opoderdapalavra às 20:47
30 de Agosto de 2010

Dia 1.

A chegada. Assim que um avião desliza as suas rodas numa pista de aterragem, sentimos desde logo a sensação estrangeira de penetrarmos no ventre cultural de outra nação, de outro povo, outra tribo. Dar os primeiros passos nesses terrenos, traz-nos a mistura absorvente dos cheiros com as cores, esses ocres desérticos mas envolventes, os sabores que a brisa nos traz e que se enrolam na língua, e a transformam num rolo de gostos e paladares. A noite cai como uma manto que nos cobre o corpo. Ouvem-se sons estridentes, latas que batem umas nas outras, vozes que gritam pela clientela mais afoita e que rapidamente se aventura numa mesa corrida de pratos repletos de especiarias e outros condimentos, cozinhados por mãos que haviam ainda há pouco movido ferros sujos para cobrirem as bancas, fugindo de umas gotas de chuva traiçoeira. Mas este jogo de meia sujidade parece ser quase um cartão de visita, e os nossos pensamentos alegram-se em divertidos olhares para a panóplia de discussões e de confrontos pela luta de mais um cliente. A espetada. O cuscuz. A Fanta Orange. Este espectáculo é completo com danças de cobras, vendedores de água, miúdos que pedem, bancadas de sumo de laranja e outros afins. Esta é a praça principal de Marraquexe. Marrocos. Uma cidade onde o transito caótico para os ocidentais é a normalidade para estas gentes que atravessam o Ramadão, período sagrado de sacrifício pessoal dos crentes no Islão. Ouvem-se as rezas, os corpos que deslizam como ondas, os tapetes, as mulheres de um lado e os homens de outro, as mesquitas. Mas nesta ribalta muçulmana uma pergunta começa a assolar-nos: o que nos espera? Com este calor, esta humidade que se agarra à pele, abraçando-a e preenchendo-a, o que nos espera no próximo dia, na manhã seguinte?

 

 

 

 

 

Dia 2.

A carrinha saiu cedo. Kilometros palmilhados numa toada suave, fora do controle da policia, sentindo o sono a querer regressar-nos ao peso dos olhos. A temperatura fresca dava-nos o alento para acreditar que havia uma força maior a proteger-nos. Mas enquanto subíamos a cordilheira do Atlas, a simples frescura era acompanhada por uma chuva ainda miúda, ainda acabada de nascer. Paramos numa aldeia, em que o guia nos deu a indicação para nos prepararmos. Mas agora chovia imenso. Como podíamos começar a caminhada debaixo de um quase dilúvio instantâneo? Estávamos meio baralhados, perdidos nas ideias, arrebatados numa certa pergunta: o que me deu para me meter nisto? E fomos chamados para dentro de um café, ou um local de encontro, ou um sitio com uma pequena sala, uma espécie de refugio, onde sentamos os corpos em cadeiras de plástico e começamos a nossa aventura com o chá de hortelã. Mas logo sentimos que algo estava a acontecer. Do alto das montanhas, a natureza acabava de vomitar uma torrente de pedras e água. Saturou a estrada, os caminhos, as vielas, os passeios, ou mesmo os frágeis alpendres de madeira e palha. Estávamos absortos com tal surpresa. Os nossos olhos absorviam cada movimento de água, cada som estridente de pedaços do planeta a rolarem como berlindes pela cascata improvisada da aldeia. E a caminhada? Estávamos cada vez mais pensantes, cada vez mais questionados sobre se estas seriam as nossas férias desejadas. Mas fomos surpreendidos por outra força ainda maior que a do dilúvio. A força das pessoas, do povo, da cultura que logo se juntou, sempre com um sorriso nos lábios, para se ajudarem. Uns pegavam em paus grossos e tentavam delinear o percurso daquele novo rio. Outros davam as mãos para mulheres e crianças puderem atravessar a torrente. Não deitaram as mãos à cabeça, nem pensaram quanto poderiam pedir de subsídios ao estado, fizeram sim a junção de esforços, de um acreditar quase milagroso e de uma vontade assaz surpreendente. E todos eles em jejum, sim, porque durante a travessia do sol pelo dia, nem água nem comida pode trespassar a porta dos seus corpos. Fica tudo do lado de fora, esperando pelo deitar do sol, no leito da noite.

E de repente fomos sequestrados de novo pela nossa carrinha, uma Ford Transit de um ano que nem dá para ter lembranças, e somos levados para outra aldeia, ali perto, mas que se tornou mais longe, devido aos entraves na estrada que o dilúvio acabara de provocar. Chegou-se a ver um precipício logo ali, diante dos nosso olhos, enquanto o condutor persistente, teimava em dizer aos entulhos espalhados na estrada, que era mais forte, mais poderoso, aliás, nada como vir atrás e tentar de novo. E assim chegamos a Imlil. 1750 m de altitude. Pequena vila encrostada no meio das montanhas. Vislumbrava-se o topo, o Toubkal, os vales repletos de árvores e zimbros, os miúdos que jogavam à bola, as mulas que haviam de carregar o peso das nossas mochilas, e os homens, esses simples homens que nos trouxeram sempre um sorriso, uma bondade, uma atenção, no meio de umas roupas quase eternas, molhadas, mas onde a força da sua simpatia arremessava para o infinito essa imagem de pobreza, e os engrandecia, esses homens de jejum. Enquanto nós comíamos, nós, os Ocidentais. Mas havia ainda o riso das crianças que trocavam a segurança das casas pelas aventuras de um ribeiro, que se tornara mais agreste. Havia o cheiro da terra molhada, suada. O cheiro das verduras. O cheiro das casas... os cheiros que rapidamente se tornaram vizinhos de nós.

Amanhã será outro dia. Mas começamos a pensar que algo quis mudar a rota dos acontecimentos. Algo queria falar connosco. Mas agora repouso, descanso das emoções. Amanhã caminhamos.

 

 

Continua.

publicado por opoderdapalavra às 22:10
05 de Agosto de 2010

Num livro, que recomendo, chamado “Um Mundo Novo” de Eckhart Tolle, li que o ego é o pensamento e o nosso Eu Superior, ou seja quem somos realmente, é a consciência. Depois de algumas reflexões, chego à conclusão que de facto os nossos pensamentos são apenas o nosso lado egoico a produzir uma série de ideias, a fluir conceitos em que nos tornamos simplesmente o quase ser perfeito, até no negativo. Neste livro, o autor fala que o ego é feito de queixumes, em que se queixa de tudo, de tudo se vitimiza, em que só sabe falar do que já viveu, da forma como viveu, do que lhe fazem, da critica fácil, etc. Tudo em prol do centro, a pessoa em si. Mas a libertação, o principio da libertação do ego, esse lado tão altruísta e destrutivo do Homem, está em tomarmos consciência do nosso ego, em termos a certeza que ele existe em nós e quais são as suas  manifestações. De facto, eu tomei já algum tempo atrás consciência que tenho um ego, um lado egoísta, um lado em que gosto de pensar que talvez seja vitima de algumas coisas e atitudes de pessoas. Mas desde esse tomar de consciência que venho erradicando muito dessa egoica forma de ser.

Nos nossos dias olhamos em volta e descobrimos que as pessoas estão mergulhadas, cada vez mais, num manto sombrio de tristeza, em que se queixam de tudo e de todos, em que se defendem com o passado, esse passado que de nada serve, pois já nada se muda, apenas se pode aprender e apreender com ele. As pessoas procuram respostas à sua tristeza em frases, em livros, na escuta activa dos outros, enfim, elas procuram as respostas fora delas, quando as respostas, o caminho, está dentro delas. Eu leio os livros, como este que referi, porque adoro ler e porque as opiniões, os pontos de vista dos outros são fundamentais para podermos partilhar a vida, esse conceito tão vasto quanto a essência global. Eu gosto de procurar as ideias dos outros, mas não procurar nelas as respostas às perguntas que só a mim são colocadas.

Parei. Tomei consciência. Parei e comecei a sentir-me, a ver que sou mais do que o pensamento em si. Sou vida, e tenho vida em mim. Este é o principio da consciência. Pararmos e começarmos a observamo-nos. Fechem os olhos e comecem a sentir a vida que as vossas mãos tem, os vossos pés, e vão descobrindo-vos aos poucos e tomando consciência de tudo. Não se queixem, apenas descubram e tomem consciência.

(continua)

publicado por opoderdapalavra às 23:48
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