podes pensar, podes falar, mas tudo o que escrevas tem o poder de ficar.
30 de Maio de 2010

Não sei porquê, mas apeteceu-me escrever um pequeno texto, desconsoladamente e depois dividi-o em partes, como que pausas, tempos. Este foi o resultado, sem poesia, sem ser poeta, sem ser cantor nem armador de palavras, apenas sentindo, assim ficou escrito, numa experiência com uma folha, simples, em branco.

 

 

 

 

 

Nesta noite procuro o branco da folha,

em busca do silêncio das palavras,

ditas

escritas,

que teimam em atormentar-me a alma.

Não quero exprimir o vazio,

apenas quero deitar-me na ausência,

na loucura do nada,

sentir coisa nenhuma,

porque no dia já senti em demasia.

Gastei os cartuchos desta espingarda de sensações

que o meu coração detêm.

Disparos

e mais disparos,

indefinidos pelo tempo

que teima em atropelar-nos os pensamentos.

Procuro o branco da folha,

para que a história não avance,

fique onde está,

no mesmo sitio onde a deixei um dia,

para que possa voltar a ela

sempre que quiser.

O passado é um pedaço de nós

que persegue

o nosso presente

com o intuito

de o aprisionar,

de o fatiar

em pedaços,

como

serial killer

que esquarteja

a sua vitima.

Ele transforma

o presente

num pedaço de memórias,

de acontecimentos

que preenchem

as nossas atitudes,

abusando

da ideia

de que

somos

o que vivemos.

Mas sermos

o que

vivemos

não significa

sermos

presos

a factos

que

não são apagados,

apenas

são

imagens

nas molduras das nossas lembranças,

para que não nos esqueçamos

o que somos

e

como o somos.

Por isso

a folha em branco

é uma amiga sem limites,

uma companheira que não julga,

não fala,

não diz nada.

Apenas se limita

a estar de frente para nós,

na ausência dos sons,

das frases

que estão queimadas em nós,

das palavras

que se perderam nos nossos olhos,

ela espera pacientemente

que estejamos preparados

a escreve-la.

publicado por opoderdapalavra às 20:29
19 de Maio de 2010

Tenho falado, nas outras duas reflexões, sobre a cultura portuguesa e o seu contributo, para o actual estado do pais. Gostava de abordar mais dois pontos, que considero essenciais para reflectirmos sobre o que é hoje Portugal: primeiro, o mediatismo gratuito, e em segundo, a nossa identidade linguística e escrita.

No primeiro, aproveito dois acontecimentos muito recentes para ilustrar como nós adoramos os mediatismos gratuitos. Somos um povo escravo dos folhetins. Ontem, o Sr. Presidente da Republica promulgou a nova lei, que permite a pessoas do mesmo sexo, contraírem casamento. Bem, em primeiro lugar, quero deixar bem claro que não me oponho a esta lei. Todos são livres de escolherem a pessoa que desejam amar. E não sou contra esta lei. Agora, fazer dela um cavalo de batalha, uma infinita fonte de discussões sociais, televisivas, entre outras é que não se compreende. Vejamos, sei que é uma matéria sensível, e por isso mesmo, deve ser uma discutida, apenas, nos locais devidos, na Assembleia da Republica. Não vamos tornar este assunto, numa ordem quase incontornável de sobrevivência da nação. Falando para os opositores da lei, digo-lhes que o Homem não tem o direito de ordenar a outro quem deve ele gostar, pois os casamentos combinados e os amores desencontrados devem fazer parte do passado. E os homossexuais não são pessoas doentes. São pessoas perfeitamente normais. E devem ter direitos, tanto como os que são heterossexuais. Para os que defendem a lei, vejamos, o casamento é um acordo de duas partes, onde se estipula os direitos e deveres de ambas as partes, ou seja, o termo casamento civil não tem nada a ver com os sentimentos, logo, seria mesmo necessário ter uma lei que estipulasse a palavra casamento, ou apenas era preciso uma lei que definisse direitos iguais para todos? Ou esta lei é mais do que o simples direito ao casamento, mas é uma lei que define a existência, a legalidade de existirem homossexuais? Via, ainda há pouco, o dirigente de uma das organizações de defesa dos homossexuais, dizer que agora já pode assumir-se perante a sociedade. Desculpem-me, mas assumir-se perante a sociedade? Mas o seu amor é com a sociedade ou com a outra pessoa? Tenho reparado que o dito preconceito existe dos dois lados da barricada. Um porque defende que o amor só deve existir entre pessoas de sexo diferente, o outro porque acha que a escolha de quem se ama não é o seu problema, mas deve quase ser um problema de todos. Sabem, o amor não escolhe, mas sim leva-nos a descobrir alguém. Sem forçar. Por isso, tal como o sentimento, não forcem nada, descubram apenas ( isto para os dois lados da barricada). Vivam e deixem viver os outros da forma como eles desejam viver.

Andamos neste assunto uma série de tempo. Será que ele é assim deveras importante, para sermos bombardeados de noticias e discussões todos os dias? Será que Portugal avança com estas discussões? Penso que não. A vida é dinâmica, e sabem, a liberdade de cada um não começa numa lei, ela começa sim, no pensamento de cada um.

O outro acontecimento foi a visita do Papa. Ele veio, chegou, celebrou missas, sorriu para as multidões, acenou para os que o ovacionavam, e foi-se embora. Pronto. Está feito. Andamos meses e meses a falar desta visita, a discutir orçamentos, tolerâncias de ponto,  altares caríssimos, cortes de transito, navios no Tejo...

Mas tudo aconteceu num pequeno espaço de dias.  O Papa vinha na mesma, mesmo que não houvesse um microfone com ouro, ou mesmo que não houvesse tolerância de ponto   ( uma atitude puramente politica e não religiosa) , mesmo que em vez de 500 000 pessoas, só houvesse 499 999. Ele é um Homem de Estado, alguém que faz o seu próprio caminho, discorde-se dele ou não. Ele não é nenhum Salvador, apenas um caminhante que transporta uma palavra, uma filosofia. Não temos que andar presos ao mediatismo gratuito de quase subjugação a alguém de fora, para mostrarmos que somos grandes por dentro. Não o somos. A grandeza das pessoas vê-se pela simplicidade da sua existência e não pelo decore exterior da sua mentira.

O segundo ponto, sobre a nossa identidade linguística e escrita, começo por falar de um Primeiro Ministro Português que vai a Espanha e resolve falar num espanhol saloio, perfeitamente arranhado e desfigurado, em vez de simplesmente falar na sua língua, na sua identidade, o português. Alguém se recorda de Zapatero vir a Portugal e falar em português ou tentá-lo fazer? Porque é que nós continuamos a ser dependentes dos outros, quando temos algo para mostrar, algo para afirmar-mos como parte de nós mesmos? Ó Sr. Sócrates, tenha dó e vergonha e fale em português, a tal língua que quando vos dá jeito, gostam de invocar como Língua de Camões, mas pelos vistos não deixa de ser a língua dos parolos da periferia europeia. Eu não sou desses. Eu sou português e adoro a minha língua. Eu sou contra acordos ortográficos que servem para prostituir a nossa identidade como base linguística, como cultura falada e escrita. E não venham os defensores do acordo dizerem que temos de deixar de ser preconceituosos ou outra coisa qualquer, porque não temos de nos adaptar aos outros, os outros é que se quiserem, adaptam-se a nós. Em vez de investirmos, como fazem os espanhóis, em mais escritores portugueses, em mais actores, músicos, artistas portugueses, em mais pintores portugueses, em mais cultura portuguesa, e deixarmo-nos de ser tão dependentes do exterior e tão subservientes aos outros, talvez comecemos a ver que temos uma identidade, goste-se ou não, é a nossa.

E vai este Portugal andando, cantando, rindo e chorando, abismado e adormecido, este Portugal que adora as novelas e suas histórias, contos de fadas e que espera divinamente o dito milagre que nunca vai chegar... pelo menos de onde o português o espera.

(continua)

publicado por opoderdapalavra às 01:11
18 de Maio de 2010

Continuando a minha reflexão sobre Portugal, começo por um artigo que vem na revista “Publica” de domingo passado ( dia 17 de Maio) , onde se aborda a visão que a  National Geographic foi fazendo do nosso pais, ao longo do século XX. Eles foram visitando Portugal ao longo do século, começando por um artigo de 1910, assinado por Oswald Crawfurd, que descreve um pais pobre, com beleza natural, tolerante nos costumes, honrado e hospitaleiro. Mas parafraseando a revista “Publica” : “ E a verdade é que as descrições feitas pelos posteriores enviados da National Geographic nas décadas seguintes não irão mudar muito.” E é verdade. Eles foram constatando um pais rural, um pais cada vez mais periférico na sua cultura, na sua intelectualidade, cada vez mais dependente do exterior. Em 1941, as crónicas descrevem um pais que tinha nas sardinhas, no vinho e na cortiça, as suas principais receitas. Mas descrevem Portugal ainda como um pais pobre e onde dois terços são analfabetos. Mulheres bonitas, um sol único, um céu majestoso, parias douradas a lembrar os tempos fenícios, o trabalho da terra, da pesca, das diferenças entre homens e mulheres, as obras fechadas de Salazar, a nossa ausência da guerra, a localização de Lisboa como ponto de passagem de refugiados, espiões, e voos da Pan América para a Europa. Somos descritos como um pais colonialista. Mas também somos descritos como uma nação inovadora, na abolição da escravatura. Mas, e olhando para este artigo, penso que continuamos na mesma. Passo a explicar. É verdade que já não somos um pais analfabeto, concordo que a evolução foi deveras marcante. Mas, o nosso analfabetismo existe noutro formato, no cultural. Senão vejamos. Continuamos a formar pessoas, perdão, continuamos a entregar canudos a pessoas que apenas alimentam as estatísticas gerais da Educação, pois em termos práticos, alimentamos as percentagens de desempregados ou de caixas dos Hipermercados. E todos com um curso Superior. Como é possível? Isto é analfabetismo cultural. Não basta entregar diplomas de cursos, temos primeiro de construir a casa pelas bases, que são criar uma sistema técnico profissional, que possa de pronto responder à quantidade de pessoas que terminam os seus cursos, de forma a rentabilizar o investimento publico que foi feito na formação dessas pessoas. Temos de ter a consciência, que se a Educação é um bem publico, ele é pago por todos os contribuintes, logo, temos de tirar o proveito dessa contribuição. Temos de saber rentabilizar, prontamente, as pessoas que se formam nas Universidades. Mas para isso, é necessário, termos uma verdadeira gestão dos cursos. Para quê continuarmos a ter cursos, para a qual não temos recursos de emprego? Temos milhares de professores desempregados, porque não temos lugares para eles os preencherem. Porquê? Porque muitos desses lugares foram preenchidos por pessoas, no passado, que tiraram cursos como os de Engenharias, ou de direito, e que sem terem lugares para ocupar ( nas vias que escolheram) optaram por dar aulas, mesmo sem terem vias de ensino. E acomodaram-se e hoje continuam lá. Pois, analfabetismo cultural, porque não havendo uma boa gestão, não há resultados. Temos diversas pessoas que deviam ser rentabilizadas nas suas áreas de ensino, e não o são, porque não foram tomadas as medidas para que tal acontecesse. Por isso é que muitos bons cérebros tem abandonado o nosso pais. Porque se sentem inúteis neste Portugal. E nós investimos para não tirarmos proveitos. Quando é que os políticos e os senhores das decisões neste pais vêem que o maior investimento que se faz é a Formação? A educação? A Cultura? Porque é que o Salazar e outros ditadores fazem a censura? Porque sabem que o maior inimigo deles é o pensamento inteligente. Por isso é que, a National Geographic, encontrou um pais analfabeto. Mas ele hoje é ainda mais analfabeto, porque tem as armas da formação, mas não forma, disforma, descompensa a formação das pessoas, alinhando-as numa formatação preparada para aceitar esta cultura vazia, sem rumo e de um fado inigualável. Assim eles, os políticos, podem governar como querem, porque nunca o povo vai acordar. Esta é a formula mágica. Podemos criticar, podemos gritar e fazer umas greves, manifestações, ou até fazer umas ameaças, mas nunca vamos fazer o que devia ser feito, começar a pensar, começar a sair do poço vazio e começar a enche-lo de  boas ideias, de cultura, de formação. Só ai podemos mesmo fazer o que devia ter sido feito em 1910 ou em 1974, uma revolução cultural. Nunca aconteceu, acredito que nunca vá acontecer... mas adorava estar enganado.

Continuando a perspectiva do ensino, defendo que ele deve ser exigente, quer para os professores, quer para os alunos, sem medos, nem preconceitos. Uma formação exigente não significa uma formação repressiva, significa sim uma formação construtiva e delineada para surtir efeitos práticos da mesma. Não podemos formar um advogado para ele ser um desempregado ou um simples empregado de mesa ( sem ofensa para tal profissão de total mérito). Não podemos formar um professor para que ele, nem um aluno  venha a ensinar. Temos de criar estruturas, e não fracturas. Se temos défice de investigação, vamos criar as condições necessárias para que os investigadores possam desenvolver o seu trabalho em Portugal. Assim teremos mais massa activa, assim teremos mais matérias, e assim iremos tirar proveitos dessas mesmas matérias. Não podemos inventar o que outros já inventaram, temos de olhar para nós e criarmos as nossas próprias riquezas. Só assim seremos maiores, seremos mais sustentáveis. Não podemos cultivar um vegetal, se não temos agricultura para o fazer. Não podemos continuar a sustentar obras que não são as prioridades deste pais, e deixarmos de fazer aquelas que nos vão trazer mais valias. Exemplo: O porto de Sines está preparado há muitos anos para poder receber tráfego marítimo de grande porte, sendo uma entrada privilegiada na Europa... mas porque é que não o faz? Porque construímos o porto e esquecemos de fazer o resto, a estrutura para o servir. É isto mesmo, nós queremos é mostrar as estatísticas de que temos mais pessoas formadas, mas depois não construímos as estruturas para servir essa formação. E já agora, aproveito para recordar aos pais deste Portugal, que as escolas são centros de formação, não são centros de educação. Querem educar os vossos filhos, façam-no em casa. Os professores não podem ser os bodes expiatórios das vossas frustrações como pais. Devemos ser exigentes com os professores, mas ao nível da formação, não da educação. Deixem-se de desculpas de tempo, porque se tem tempo para os intervalos do cigarro, para o jornalzinho e o fininho ao final do dia, também tem tempo para uma conversa firme e decidida com o filhinho. E não é a dar desmesuradamente aos filhos que resolvem os problemas do seu futuro, constroem é o problema do futuro. Cada vez mais não são os filhos que precisam de crescer, são os pais. Analfabetismo cultural. É isto que não mudamos... espero que a utopia de pensar que um dia tudo muda, se torne mesmo numa realidade exacta.

A estrutura de uma nação começa, como dizia atrás, pela formação. Mas tem outros pilares: valores, filosofias, direitos e deveres. Gostava agora de me centrar nos dois últimos. Direitos e deveres. Pensamos que temos direito a tudo e não temos dever de nada. Pois, mas o Estado deve ter o dever de proporcionar à população o bem estar geral, a nível da saúde, cultura, justiça e educação. Mas qual é o seu direito? É o de receber o contributo da população para conseguir alcançar na sua plenitude os deveres que tem para com ela. Passo a explicar-me. Um cidadão deve saber participar activamente na vida do seu pais, ao nível a que se sente habilitado: social ou cultural ou mesmo económico. Assim poderá sempre contribuir para que o Estado se torne mais justo, mais social, mais rico culturalmente. Mas se o cidadão se imiscuir dos seus deveres nacionais, então, entrega o Estado aqueles que pensam detê-lo e estes não o representam, mandam nele. Esta ultima parte é a verdade do nosso pais. As pessoas no geral não querem saber dos seus deveres como cidadãos e delegam em outros a sua representatividade, só que estes não representam, apenas se acham donos dos lugares. Eu pergunto, se não gostam do que tem, porque continuam a alimenta-los? Porque não tem outros? Porque acham que todos os que possam ser políticos, de verdade, são iguais aos actuais? Isso é uma desculpa sem pés nem cabeça, porque se eles não forem motivados, eles nunca vão aparecer. Façam-nos aparecer, exijam que eles apareçam e eles vão aparecer. Acreditem. Esse é o meio natural das coisas. Não podemos continuar à espera d milagre, quando ele está nas nossas mãos, nas nossas decisões, nas nossas escolhas. Votar é um direito, mas é também um dever. O dever de saber escolher. O dever de participar. O dever de contribuir.

Ajam. Participem. Exijam. Não temam. O medo é o principio do fim. Um dia, uma pessoa muito especial ensinou-me algo. Estávamos num declive, um precipício, olhando um enorme prado que avistávamos no horizonte. Descansávamos de uma batalha, mais uma entre tantas, e eu olhando o fundo da escarpa, disse-lhe:” Aqui, dando mais um passo verei o abismo.” Essa pessoa, calmamente e sabiamente, ergueu-se e de pronto se abeirou do precipício. Olhou em frente e disse: “ O abismo não é darmos um passo em frente, o abismo é darmos um passo atrás.”

(Continua)

publicado por opoderdapalavra às 00:46
06 de Maio de 2010

Portugal. José Gil escreveu, num belo livro - Portugal Hoje, o medo de existir -:

“ É a vida (...) É a vida, pois. Que mais quereis? É a vida lá fora, não há nada a fazer, é assim, vivei a vossa paz e serenidade, não há nada a temer, é lá longe que tudo acontece, no entanto, estou aqui eu para vo-lo mostrar inteiro, o mundo, ide, ide às vossas ocupações que a vida continua.(...) Estamos fora da vida, dentro dela:”é a vida!...” É esta mistura confusa de transcendência-imanência da nossa vida à Vida que provoca um nevoeiro no espírito.”

Pois. Este pequeno excerto, muito bom, demonstra o intimo da nossa sociedade. Fico cada vez mais estupefacto ( adjectivo muito em moda hoje em dia) com a resignação das pessoas. Todas criticam, todas dizem que discordam do panorama actual do nosso pais, todas apontam o dedo, mas quando lhes é pedido para actuarem, apresentarem soluções, refugiam-se na velha demanda nacional “É a Vida.”... lá fora as coisas também não andam melhor... bem, o meu vizinho até pode estar com um problema conjugal, mas isso não implica que eu agonize o meu. Um pais é constituído pelo todo, onde se incluem todas as pessoas que tem a mesma nacionalidade. Sejamos sensatos a aceitar de uma vez por todas a nossa condição: somos Portugueses. Ponto. Agora, para isso também sejamos racionais e corajosos a assumirmos as nossas responsabilidades como cidadãos. Não basta criticar, não basta resignar, não basta desculpar, há que actuar, procurar, discutir, apresentar, lutar, intervir.

Estamos a viver um período muito difícil a todos os níveis. Económico. Social. Formação. Cultura. É preciso reflectir. É preciso agir.

Há uns dias, enquanto visitava o local onde decorreu a celebre Batalha de Aljubarrota, pensava nos milhões de portugueses anónimos, que ao longo da nossa história, já morreram em defesa deste mesmo pais onde vivemos hoje. E a eles não podemos simplesmente dizer que esta crise “é a vida”, pois eles nunca compreenderiam porque derramaram o seu sangue em defesa de um pais já destinado a fracassar. Não. Eles lutaram, acreditaram que seria sempre possível tornar este pais melhor, uma nação livre, um estado culturalmente forte. E eu pergunto, perante a actualidade, seremos dignos desse sacrifício? Seremos o legado dos que lutaram naquele 14 de Agosto de 1385, em busca de uma independência que nos tornou de novo uma nação única e que viríamos anos mais tarde a dividir o mundo com os espanhóis? Ou seremos apenas um legado pobre dos que ficaram sempre em terra nos descobrimentos (como cantou Camões no Velho do Restelo), os que se recusaram sempre a lutar pela independência, os que se esconderam das batalhas com Castela pela fundação do Condado, ou os que fugiram para não quererem fazer parte de uma luta, que teimam não ser a deles?

Quem somos afinal, hoje?

Tenho assistido, nos últimos tempos, a um desligar completo da realidade e das responsabilidades cívicas, de muitos cidadãos portugueses. Não querem saber, não querem participar, não desejam que a solução passe por eles, etc... mas... pois existe sempre a terrível palavra “mas”... se por um acaso, este pais voltar a encontrar um rumo, um caminho em que possamos sair deste marasmo sócio-cultural e politico em que estamos naufragados, esses mesmos, desligados, voltaram a reclamar os seus direitos, as suas responsabilidades no volte-face? Pergunto a todos, o que querem afinal para o vosso pais? Kennedy teve a brilhante frase “ Não perguntem o que o vosso pais pode fazer por vós, perguntem-se a vós próprios, o que podem fazer pelo vosso pais”, pois então eu pergunto, o que podem vocês fazer por este pais?

Um dia li, num pequeno conto chinês, que quando chega a altura da sementeira, poucos são os que estragam as mãos a lançarem as sementes na terra, a tapa-la e regá-la... mas muitos são os que vem a correr para colherem o fruto dessa sementeira. Este conto é um dado importante, que retrata o que é a sociedade portuguesa, a republicana sociedade portuguesa.

Chegamos à crise. “É a vida”, não é? Lá fora as coisas também não andam muito melhor. Hoje li, no jornal Publico, que os Juros da divida publica portuguesa vão atingir o valor mais alto desde a adesão ao euro. Será esta noticia, estes dados preocupantes, apenas a “Vida”? Nos últimos dias tem-se discutido imenso sobre as obras publicas, sobre os prémios dos gestores públicos, sobre as despesas publicas. Meus caros, primeiro o pais não pode parar à espera que um qualquer Milagre venha bater à porta na nossa fronteira e diga: “Saiu o Euro milhões a este pais”, e todos ficamos contentes. Isso nunca vai acontecer. Agora, precisamos urgentemente de mudar. Precisamos de medidas, mas sérias. Há poucos dias foi noticiado que a Espanha vai fechar algumas empresas publicas, extinguir vários cargos de gestão publica e mexer nas despesas do Estado, incluindo os políticos. Ora aqui estão medidas sérias e concretas. Ou seja, as ideias para combater a crise começam de cima para baixo, e não como fazemos em Portugal, que começa de baixo, passa pelo meio, mas nunca chega ao cimo. Todos os que estão no meio politico, nos meandros da politica nacional, ora como deputados, ora como gestores de empresas publicas, não chegam nunca a definir cortes nas suas despesas. Logo, pergunto, porquê? Ora, mas não podemos esquecer que somos nós, o todo, os que ficam no anonimato, como todos os que perderam a vida pela pátria, que os escolhemos, que definimos quem toma as decisões por nós. Mas continuamos a escolher os mesmos, as mesmas ideias. E incluo neste “mesmos”, os outros que são eleitos, mesmo que por partidos mais pequenos ( BE, CDS, PCP,etc). Todos eles tem feito parte do aglomerado politico que reina neste nosso Portugal desde o 25 de Abril.

Nós precisamos de parar e reflectir se é isto o que desejamos. Precisamos de pensar como podemos participar, como podemos ser escutados. Porque se uma voz é apenas um sopro, muitas podem começar a ser a voz que se ouve. Não fiquem parados, escrevam, falem, passem a palavra, participem. Mas, seriamente, porque de criticas está este pais cheio, basta ver os debates na Assembleia. Precisamos de ideias, mas das boas.

Quanto ao que pode mudar para sairmos da crise? Não existem formulas mágicas, tenhamos essa consciência. Precisamos de uma verdadeira revolução. Precisamos de readquirir valores sólidos. Tudo começa na educação. As escolas não podem ser simples locais de educação, pois ela deve começar nas nossas casas. As escolas tem de ser os centros de formação académica, cívica. Temos de exigir, para nos tornarmos mais fortes. Exigir não pode ser confundido com austeridade, mas sim com rigor. Não podemos contribuir para a criação de uma sociedade de vícios. Temos de mostrar que a história é a raiz da árvore, o tronco são os valores pela qual se rege o pais, os galhos são as variantes filosóficas do pensamento nacional, as folhas o fruto da conjugação de fortes raízes com um sólido tronco e filosofias capazes de instruir e desenvolver o pais. Esta árvore tem de ser regada com a educação que transmitimos em nossas casas. Eu não aprendi que uma pessoa de 60 anos é um “velho”, mas sim que é um “Sábio”, porque já viveu algo que eu nunca vivi. Temos de saber os princípios básicos do respeito. A liberdade não é fazer tudo o que nos vai na cabeça. A liberdade é o estado de sabermos que as nossas fronteiras começam e acabam onde começam e acabam as fronteiras do nosso próximo. Isso é liberdade.

Precisamos de aprender também o que significa liderança. Ela não é feita de poder. Ela não é feita de autoridade. A liderança é feita de sabedoria. A sabedoria de fazer acreditar os seguidores de que um certo objectivo é possível ser atingido, ser concretizado. Mas fazê-lo de uma forma séria, livre, respeitando todos os participantes directos. Tivemos muitos lideres, e volto a um em especifico, D. Nuno Alvares Pereira, O Condestável. Ele fez acreditar, baseado numa estratégia militar exemplar, que mesmo em menor numero, poderiam derrotar os inúmeros exércitos de D. João de Castela. Fez acreditar. Liderou. Eu sei, falta-nos hoje um Santo Condestável. Mas recordo-vos algo importante... nós somos descendentes dele. Ele fê-lo para que todos nós hoje, podemos dizer, somos portugueses. Vale-nos de algumas coisa? A resposta está em nós, não no que ele fez.

(Continua).

publicado por opoderdapalavra às 23:14
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