podes pensar, podes falar, mas tudo o que escrevas tem o poder de ficar.
26 de Maio de 2009

 O motor parou. Como pode parar um engenho que tem sido sempre lavado com a água do poço. A pergunta invadia o pensamento de Carmina, enquanto Manel Alberto tentava descortinar o problema em questão, mas sem perceber de nada para o que olhava. O problema era tentar chegar a Lisboa, como bem se lembram, para o casamento do filho. Carmina olhava em volta e apenas conseguia ver uma placa dizendo Freixo da Espada à Cinta. Seria longe de Lisboa, perguntava ao homem, que estava cada vez mais intrigado com a quantidade de peças que compunham o dito motor. Não faço a mínima idéia, respondia-lhe o macho. Vamos até lá a pé, homem de Deus, pode ser que nos consigam arranjar essa coisa. Manel concordou. Foram até um edifício que dizia na entrada “ Bombeiros”. Pediram uma informação sobre se lhes podiam ajudar a chegar a Lisboa. Estava apenas um homem, que sentado numa cadeira, uma cerveja fresquinha na mão esquerda, um naco de pão com chouriço caseiro na direita, olhava-os com um ar pasmado. De onde vieram voçemessês? Viemos lá da nossa quinta e queremos ir para essa terra chamada Lisboa, sabe é que o nosso filho vai-se a casar e nós queremos ir até lá. Respondia-lhe Manel, afinal a mulher não pode falar com estranhos, não está autorizada a tal. Lisboa? O bombeiro coçava a cabeça, pensando que raio de pergunta esta que me vieram fazer agora mesmo que estava saboreando este bocadinho de comida. Esta gente... mas eu estou aqui sozinho sabem, e não posso sair daqui... e coçava a cabeça, porque senão quem vai-me fechar o quartel? Ninguém. De repente um toque estrondoso soa nos fundos, num pequeno gabinete. É o telefone. O bombeiro está agora numa azafama sem precedentes. Uma pergunta e um telefone a tocar, ao mesmo tempo. Que coisa, e logo agora que a cerveja fresquinha estava mesmo a saber bem, assim como o pão com o chouriço que o Ti Zé tinha trazido faz umas horas. Mas o telefone não parava e teve de sair em pressa para junto dele. Estou sim? Sim é do quartel dos bombeiros de Freixo da Espada à Cinta. Sim. Sim. Sim. Sim. Tanto sim. Até parecia uma gravação riscada. Sim, mas porque não mandam uma ambulância de outro lado? É que eu estou aqui sozinho. Sim, estou sozinho, quer dizer, eu e mais um casal que veio perguntar-me onde é Lisboa. Pois, mas estou sozinho. Ele está a morrer? Pois, não pode-lhe perguntar se consegue agüentar até chegar outra ambulância?...depois de uns minutos de conversa, o bombeiro vê-se obrigado a sair numa ambulância. Mas não podia deixar ali a Carmina e o Manel Alberto. Então decidiu leva-los com ele. Que viagem. Curva e mais curva. E nenhuma resposta sobre Lisboa. Chegaram a um local onde estava um carro todo destruído, um carro de policia e muitos populares de braços no ar. Ah, e outro deitado no chão, tinha uma espécie de lençol branco por cima dele. Então o que se passa, perguntou logo o bombeiro, e um dos policias respondeu, então não vê que está ali o homem morto? Pois, coitado, mas chamaram-me para quê? Então para leva-lo. Mas tem de esperar que venha o carro do INEM. Para se ele está morto? Perguntou naturalmente o bombeiro. Pois, são as normas, o policia. E esperaram. O Manel, instigado pela mulher foi perguntar ao bombeiro se já podiam ir embora. Claro, desculpem lá qualquer coisa. Podem ir embora. E Lisboa? O bombeiro disse-lhes finalmente que também não sabia para onde era. Então perguntaram a um dos policias. Este depois de lhes perguntar porque é que queriam saber de Lisboa, e eu sei que vocês já sabem, ele decidiu dar-lhes uma boleia até à próxima paragem de autocarro, que os levaria até Vila Real e dai apanhavam o expresso até Lisboa. Manel Alberto e Carmina gostaram dos nomes que escutaram e pensaram que Lisboa estaria perto. Mas primeiro tinham de esperar pelo INEM. Afinal o homem morto precisava de uma reanimação...

publicado por opoderdapalavra às 22:30
21 de Maio de 2009

 

Cheguei. Deixei-me ficar no olhar do entardecer. As horas parecem ficar na borda deste lugar, fronteira passiva entre o que vivi e o que estou a sonhar. Este limite de lugar é segredo escondido no seio de uma terra que permanece serena na história, local onde tudo se transforma nesse sentimento de tranquila presença. Sinto que o meu corpo se altera, para o estado quase inerte de medo, de stress, de uma ansiedade que consome como qual animal devorador, a nossa alma. Aqui sempre que me sento, a olhar, apenas olhando, fico na simplicidade das coisas, como apenas uma peça desta parte do todo, apenas onde o todo precisa desta parte onde está esta minha peça. Tudo é simples. Tudo é vida. Tudo é belo.

 

 

 

Lá longe, onde navegantes baloiçam nas ondas que dançam, ritmo marítimo que marca o compasso do navegar. Lá longe, onde os sonhos dos que foram, um dia encontraram no infinito lugar das águas, o finito lugar da terra que havia sido prometida. Lá longe, onde as naus transportaram os pensamentos de homens, as visões de seres que pensaram que para lá deste mar existem terras por explorar. E para lá longe eles partiram, sem medo, receios traiçoeiros de que tudo podiam perder, monstros encontrar, ou do nada voltar. Foram e descobriram. Descobriram que no vento vem a força de procurar, nas estrelas a vontade de guiar, e no sol a riqueza de acreditar. Assim se fizeram os dias, lá longe, quando este lugar é lugar de gentes, fortes, destemidas do fundo negro do nada querer, gentes que gritaram por partir, para cedo voltarem e no anónimo dos corpos, seus nomes escreverem nesta história que um dia alguém decidiu contar. Muito me honra, quando olho lá longe, onde um dia esta terra foi gente, crescida, madura e forte de vontades viajantes e descobridoras. 

publicado por opoderdapalavra às 00:15
12 de Maio de 2009

Aqui deixo as palavras de um dos seguidores deste blog. Obrigado caro Miguel. E todos os outros enviem para opoderdapalavra@sapo.pt as vossas opiniões ideológicas.

 

 Não creio na República. Sou Monárquico. Já vamos em 3 Repúblicas e só coleccionamos bananas. E já tivemos uma ditadura. 

Mais. Não acredito em partidos. São más escolas de maus professores com vista à preparação de uma vida imoral, sem ética e bolorenta nos valores. Os meninos das Jotas vão sendo ensinados no carreirismo, na cunha, no facilitismo, entre outras belíssimas coisas.
Mas como vivo neste regime tenho de aturar esta corja política provinciana, mesquinha e intelectualmente medíocre.
Mau mesmo é a Constituição não permitir uma alternativa de regime, nem deixe referendar a alternativa monárquica.
Em quem vou votar?
Não decidi se no Herberto Hélder se na Adília Lopes.
Ou seja, voto nulo.

publicado por opoderdapalavra às 21:09
07 de Maio de 2009

 Carissimos,

a partir de hoje vou publicando uma série de espisódios, que dão pelo nome de "Crónicas de um Pais Menor". Vai ser uma viagem feita por 2 pessoas, numa espécie de circum navegação neste país que é Portugal. Voltamos aos descobrimentos, mas agora na nossa era e dentro do nosso país. Deixo-vos com o primeiro episódio e vão estando atentos aos próximos. Obrigado.

 

 

 

"Aldeia algures em Portugal. Nome? Desconhecido, a placa desapareceu faz anos, com um incêndio. Carmina e Manel Alberto, que o pai teve de escolher dois nomes para não ficar demasiado comum a todos os outros que já existiram nesta terra, eram os únicos dois habitantes deste lugar perdido no tempo. Sabem que moram num país de nome Portugal, mas que terra é esta? Ninguém mais os vem visitar, a não ser de quase 4 em 4 anos, uns senhores vestidos emperaltadamente de fato e gravata, para que eles vão colocar uma cruz ou nas chaminés ou no punho cerrado. Dizem sempre que é a democracia... pois Manel, eu bem te digo que não é para nos darem nada, é mais um daqueles peditórios para alguém ter mais um dinheirito, bem Deus Nosso Senhor até vai achar que estamos a praticar o bem, pobrezitos deles que precisam mais do que nós.

Ora hoje aconteceu-lhes a coisa mais extraordinária na vida. Um homem, de mota na mão, carteiro de profissão, veio com uma carta. Trazia noticias dos filhos que estão na capital deste Portugal, foram à procura da fortuna. Um deles, o João, vai casar e mandou uma carta para os convidar. É lá, temos um problema ó Carmina, então agora temos de sair daqui e irmos a essa terra que nem sei pronunciar o nome... alto lá, são analfabetos sim, mas quem lhes leu a carta foi o carteiro, pois de letras eles apenas sabem a roça das terras. Ó Manel, mas o rapaz vai casar, temos de ir, mas como? O carteiro já ia longe quando se lembraram em perguntar como se ia para Lisboa, lugar de gente de bem, boas figuras, gente que sabe botar a fala dura, gente que come com os garfos brilhantes e tem sempre um pano no regaço. Mas como vamos para lá? Não conheço o caminho... Manel pensou então pegarem no pequeno tractor e porem-se a caminho, qual? Então já lhe dizia o seu avô que todos eles vão dar a Roma, que não deve ser muito longe de Lisboa. Fizeram a malita e vai de por um gasoleo comprado ao Ti Arruda que sempre vem de 3 em 3 meses a estes lados, aliás até foi ele que vendeu esta bela peça de trabalho, na troca de uma vara de porcos... Calma, aqui não há gripes.

Agora que o motor parece não quere deixar falar as pessoas, e caminho fora aos solavancos num terreno meio esburacado, vão cada um pensando o que vão encontrar. Como será este pais? Como serão as pessoas que vamos ver? E se ficarmos doentes, o que faremos? E o dinheiro que levo na carteira, os euros que o carteiro sempre nos traz pelo final do mês, onde os vou gastar? E será assim tão longe, onde vamos dormir na noite? Se calhar é já ali e até dá para regressar antes que o galo estúpido possa cantar...

Vamos a ver que pais é este que vamos descobrir..."

 

CONTINUA.

publicado por opoderdapalavra às 19:44
04 de Maio de 2009

 

Existem imagens que valem as mil e uma palavras do encanto de se ser criança.

Esta é uma delas.

Obrigado Vasco Granja. 

 

publicado por opoderdapalavra às 23:06
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