podes pensar, podes falar, mas tudo o que escrevas tem o poder de ficar.
12 de Fevereiro de 2009

 O mar completa o quadro com um azul marcado. O ultimo risco é feito a carvão, traçando uma linha no horizonte, onde as nuvens aconchegam o adormecer do sol. A visão dos pássaros é tapada pelo chegar da noite. São horas de partir. Mas o pintor quer mais uns instantes a sós com o dia. São pequenos segundos em que ele conversa no silencio com as ultimas gotas de claridade, saboreando uma luz que lhe trouxe um sorriso. Foi um dia de inspiração. O sol, o céu que se pintou pela manhã, sabendo que ia ser fotografado pelo olhar do pintor e copiado pelo pincel que dançou pela tela, jogando movimentos de bailarino profissional. As rochas onde a imensidão do mar vinha abraçar, querendo trepar pela costa, numa sensualidade apaixonada, onde o oceano penetrava a terra com a caricia de um toque. O quadro foi nascendo pelas horas. O tempo acompanhou-o, fazendo-lhe companhia, contando-lhe a história dos segundos, fracções onde se adormece o passado e apenas pensamos o presente. Quando cheguei, o pintor já estava deitado. Tinha o quadro no seu dorso, agarrando-o, como que defendendo a sua mais bela riqueza. Fechou os olhos enquanto o dia se foi. Nem deu pela minha chegada. Cobri-o com as estrelas, manto que o vai aconchegar. Talvez me deixe ver a pintura, mas os seus braços são demasiado compridos e defendem a todo o custo aquela obra. Fiquei olhando por ele durante a madrugada. Estava serena. O mar cantava-me uma canção algures de encantar. Parece mesmo apaixonado pela terra. Esta deixa-se estar enamorada, sossegada pela luzes que a serpenteiam no leito. Olho em volta e reparo que um leve anjo se aproxima do pintor. Lanço-lhe um shiu, não vá o pobre homem acordar. De longas asas, ele olha-me e sorri.

- Não o quero acordar. Apenas estou aqui para o proteger. Fui buscar um encanto e demorei-me mais um pouco. Mas parece que ele não sentiu a minha falta.

- Pois, pintou esse quadro que eu gostava de ver. Mas parece que não o deixa nem pelo barulho de um silencio arrasador.

- E n\ao deixa mesmo. Sabes, noite, ele é apenas um pobre endinheirado, mas um rico humano. Sonha que um dia vai poder viver no mais belo quadro que pintar. Quer desenha-lo com uma casa à beira-mar. Uma casa onde as telhas sejam feitas de flores, para todas as manhãs poder cheirar os aromas que a terra dá. As paredes vão ser finas folhas, assim terão sempre cores diversas, conforme as estações. Quer ter um céu tão azul que até possa cegar de tanta luz que tenha. Um sol cheio de intensidade, para que nunca faça noite...

- Nunca faça noite? Mas ele quer que eu não exista?

- Ele quer que existas, mas de outra maneira...quer que sejas a sua companhia nas suas solidões, nos momentos em que ele precise de estar consigo próprio e descobrir-se dentro da sua mente, ai estará sempre contigo, pois és serena, e a tua tranqüilidade irá ajuda-lo a pensar melhor.

- Parece que é um homem triste, não?

- Triste? Talvez, mas é um homem de sentidos, sensações que o rasgam na alma e são esses sentidos que o levam a sonhar com um quadro só dele... e da amada que ele próprio quer pintar.

- Uma amada?

- Sim, ele quer pintar a mais bela das mulheres, uma sereia que virá dos mares e com uma pele tão suave que nunca sentiu tão doce toque, irá toca-lo e abraça-lo para todo o sempre.

- Todo o sempre? Não entendo, mas assim ele não vive mais se fica parado.

- Pois ele quer ser um quadro, parado, pintado... é como ele sonha viver, para que nunca haja passado, nem presente e nem futuro, apenas aquele momento, onde é feliz nas cores e na casa que sonhou com a amada que realmente o amou...

Olhei o anjo que se deitou nos pés do pintor. Ele continuava a dormir. Fiquei a olha-lo suavemente. Com o cansaço da posição, finalmente largou o quadro que pude ver.

Uma casa com tecto de flores e paredes de folhas verdes, amarelas, vermelhas.

Um céu do mais azul brilhante que pode existir.

Um sol lindo e resplandecente.

Ele. Abraçado a uma bela sereia.

Quando o voltei a olhar, reparei que a sua pele estava no estranho mundo do frio. Estava roxo. O anjo tinha partido de novo. O horizonte veio buscar. Mas levava algo nos braços. Era a alma do pintor. Afinal ele tinha sonhado, mas agora o sonho já não existia, pois transformou-se nas mais belas cores, de um quadro, o quadro da sua vida, da sua felicidade... e o dia chegou.

publicado por opoderdapalavra às 00:30

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