podes pensar, podes falar, mas tudo o que escrevas tem o poder de ficar.
09 de Maio de 2012

 

 

E naquele dia choveram flores. Não foram gotas de água pura, evaporada dos lagos e oceanos ou transpirada das árvores e arbustos, mas sim flores, milhares delas, margaridas, crisantos, malmequeres, rosas ou girassóis. Choveram, cobrindo a terra de um colorido nunca avistado por aquelas paragens, onde o perfume intenso se arrastava por quilómetros e quilómetros sem parecer que parasse. Olhar o céu repleto de flores que dançam pelo decore de nuvens cinzas, carregadas de um negrume arrepiante, é um sentido inigualável. Criou um certo sentido inverso do planeta, uma sensação de que o céu virara jardim e a terra um carregado e escuro céu.

A pergunta “ de onde vêem estas flores todas?” correu o pensamento de todos os habitantes da cidade. Uns benziam-se, apregoando rezas de espantar maus espíritos; outros estavam tão boquiabertos, que até as pétalas mais pequenas eram engolidas; havia aqueles que fugiam, refugiando-se dentro de lojas e casas, assustados com a possibilidade de saírem feridos de algum amasso de flor, chegando mesmo a gritarem aos que passavam nas ruas, observando aquele maravilhoso fenómeno.

publicado por opoderdapalavra às 23:30
08 de Maio de 2012

 

 

 

Dois homens encontram-se no acaso de um lugar. Sem se conhecerem, cruzam-se, nem se tocam. Não sabem que o outro existe, quanto mais o seu nome, a sua identidade. E de seguida, encontram mais dois homens, que também se cruzam, sem se conhecerem. Serão agora mais quatro homens, que no acaso de um lugar, ligam-se sem saberem que os outros existem, quanto mais pensarem que tem um olhar, pensamentos, ideias e acções. E com estes quatro homens, mais dois homens se cruzam, no desencontro do conhecido, porque apenas não se tocam, agora que são seis homens, que não se conhecem, sem saberem da existência dos outros, se tem mulheres, filhos, emprego ou mesmo uma dor, simples, mas que doa e só remoa. Muitos mais homens se cruzaram naquele lugar, no acaso do momento, sem se conhecerem, sem saberem que os outros todos, por mais milhares, milhões e infinitos que sejam, possam existir, mas no entanto todos eles cruzam-se com outros que desconhecem, mas que estão ligados, pelo lugar, pelo ar, pela luz, dia ou mesmo noite, enfim, cruzam-se pelo acaso, no acaso que os caminhos levaram.

Existem 7 mil milhões de habitantes no planeta. 7 mil milhões de pessoas, numero que se cruza no sentido do tempo, pois com 7 mil milhões de passos, daríamos a volta ao planeta, 133 vezes.

Juntamos os 7 mil milhões que somos, uns ao lado dos outros, e abraçaríamos a cidade de Los Angeles.

Todos os dias nasce o sol em parte e adormece a noite na outra parte, mas no mesmo momento, no mesmo segundo em que tudo decorre, nascem 5 pessoas e morrem 2, e milhões ligam-se entre si, muitos deles, a maioria deles, sem saberem que ficam cada vez mais ligados uns aos outros.

Todos os dias, fios são conectados entre vidas, momentaneamente ou eternamente, fracções, com palavras ou silêncios que nos levam a abstrair do sentido, do significado, de olhos fechados que não vêem, e assim não captam a mensagem, a razão, a tal resposta, em que se percorre vidas em busca da explicação.

publicado por opoderdapalavra às 22:48
02 de Maio de 2012

 

 

 

Faço de conta que acordei. Despertei para um novo olhar, aquele que vem com a bruma de uma madrugada de cheiros intensos, envolta em cores cinzas, com aves a navegar pelos céus, os primeiros arrebitos de um galo, os olhos sonolentos do padeiro, da senhora da fruta e do senhor que apanha as verduras frescas, ainda molhadas pela humidade dos fins da noite. Assim é que eu acordo, ao fazer de conta que os meus olhos se abrem. Posso então tocar o céu, imaginando ser um voador, asas em espada, grossas e rijas, saídas das minhas costas, bem firmes. Faço uma roda no ar, de braços abertos, desenhando um circulo, olhando os prados lá em baixo, e junto-me aos falcões, num voo planado, sem bater de asas, apenas sentindo o vento na cauda e deixando que o corpo seja uma linha do horizonte, assim, avistando o que o mundo nos trás para lá do sitio onde o sol dorme.

Faço de contas que sou marinheiro, solto velas pelo vento, pano quebrado em libertas ondas que dançam com as rajadas de um sopro que do norte traz o frio arrepiado. Vejo as baleias emergirem dos fundos do oceano, trazem as crias, mostrando-as a quem passa, e golfinhos ávidos de uma brincadeira de saltos e soltos de jactos de água salgada.

Faço de contas que apenas vejo, que sinto, que sei o que é a sensação dos que são, dos príncipes, dos que montam cavalos de espadachim, dos fins cheios de amor e dos vivem em terras bem, bem longe.

Faço de contas, mas penso, será fazer de contas mais verdadeiro do que os que apenas fazem de contas que existem, os que procuram nas contas o que fazerem, e fazem contas para poderem apenas serem… o que não são.

Continuo a fazer de contas… agora, agora sou um simples azinheiro, plantado em terrenos doceis, abraçado por longos relvados, repletos de flores multicolores. Assim sou, sonhando.

publicado por opoderdapalavra às 22:49
25 de Abril de 2012

 

 

 

 

 

Hoje escrevo.

Hoje escrevo pela afirmação, pela definição, pela opção.

Hoje escrevo porque quero que fique escrito.

Que fique escrito que no dia em que Portugal celebra a Liberdade perante a Ditadura, eu escrevo como um Ser Humano Livre.

Livre da Politica, que detesta e que abomina, que define como um vírus socialmente corrosivo. Não a politica dos pensadores, daqueles que pela História reflectiram, discutiram, ouviram, abriram novas correntes, deixaram novos testemunhos, filosofaram novos conceitos. Sou contra os ditos percursores. Sou contra aqueles que se aproveitam dos ideais para defenderem o nada, o vazio das coisas, o poço sem fundo. Ai reside a doença, aquela que adormece os pensamentos, iludindo-os com sonhos desfeitos e com promessas difusas e sem recheio. Sou contra, e afirmo-o, contra os que são nomeados democraticamente e depois nem representativos são, nem a responsabilidade e o respeito pela escolha de um anónimo, eles conseguem. Sou contra as direitas e as esquerdas, e nem no centro me identifico.

Sou Livre, porque a Liberdade não é uma pura consciência social, mas sim um direito próprio, individual e único. A Liberdade é um estado de consciência e não uma opção de multidões.

Sou contra a responsabilidade colectiva. Defendo a responsabilidade individual, porque cada um é uma unidade, um Ser Humano, uma peça do puzzle, e não uma parte dependente das acções conjuntas dos outros. Detesto a ideia de “por um pagam todos”. Defendo que devemo-nos ajudar uns aos outros, através de uma solidariedade responsável, quer de quem oferece, quer de quem recebe. Detesto a ideia de piedade como ajuda, e da falta de respeito do ajudado perante quem partilha.  

Sou contra os que, constantemente, fazem o papel ou de “Velhos do Restelo” ou de “Sábios”, para proveito próprio. Sou a favor da crítica, mas da construtiva e transparente, e não da destrutiva e interesseira.

Defendo um Estado Regulador, Fiscalizador e Pedagógico. O Estado apenas deve deter os 4 principais fundamentos do povo, garantindo-os com toda a firmeza e transparência:

- A Educação

- A Saúde

- A Justiça

- A Segurança, incluindo a Social.

Defendo que o Estado deve ser o Regulador Geral dos Fundamentos da Economia, e por consequência ser o Fiscalizador da boa prática desses Fundamentos, mas nunca o Controlador ou participante da Economia. Um Estado controlador de Economia é um Estado Corrupto. Porque? Porque o Homem não consegue sonegar a sua ideia de Poder, e o Dinheiro é sinónimo de Poder.

O Estado deve ser colector de impostos, devidamente categorizados por escalões, conforme os rendimentos (mas sem abusos), mas defendo que essa colecta deve ser responsável, ou seja, deve o Estado informar o cidadão, para onde são dirigidos os seus impostos, assim se regula a transparência de deveres e direitos entre o Estado e o cidadão.

Defendo um Estado Democrático, mas defendo que todos os deputados, a meses do final do seu mandato, deveriam prestar “contas” aos seus eleitores, e estes, poderiam decidir se esse, deputado, poderia de novo candidatar-se ao lugar, assim se conseguiria, também, quer a fiscalização do povo, quer a sua responsabilidade, quer a sua participação. E defendo que politico não deva ser profissão, deve ser por CV, ou seja, um cidadão que deseje candidatar-se deve já ter um percurso profissional considerável e não ser uma mera “carne tenrinha” saída da Universidade. Os políticos devem ser renumerados por salário médio e meritório, e o tempo que estão ao serviço do Estado não deve contar para fins de reforma. Ser deputado deve ser uma missão nacional e não um interesse pessoal. Sou a favor do voto obrigatório. Defendo que deveria ser permitido a grupos de pessoas, e não só a partidos, candidatarem-se a governos. Sou contra o Semipresidencialismo, que é o sistema que temos em Portugal.

Sou contra o aparelhismo do Estado, e contra a ideia de que devemos eternamente agraciar, e alimentar monetariamente, quem lutou ou quem fez parte do Estado, porque quem o fez, fê-lo por um bem, por uma causa, e não por um proveito próprio, apenas de si. Sou contra a ideia de se pensar, que ao fazer História, se ficou com o direito de ser-se “Dono” de um país. Nem mesmo que gere as fortunas, o deve pensar, porque não o é. Sou contra as dependências eternas do Estado.

Defendo o empreendedorismo. Defendo que um país deve-se preparar para rentabilizar o investimento que faz na formação dos seus cidadãos. Defendo que um país deve estar preparado para se adaptar às suas necessidades, e não ficar agarrado a velhos dogmas e a conceitos, perceptivelmente, inultrapassáveis.

Não sou contra o Capital. Sou é contra a ideia “ Venha a mim o Vosso Reino”. Sou a favor do respeito pelo valor do trabalho, sou anti escravização, mas também sou anti comodismo. Deve, como atrás referi, prevalecer, sempre, a responsabilidade individual, tanto para o empregado, como para o empregador. Defendo que uma empresa é uma equipa, um conjunto de pessoas, que mesmo diferenciadas hierarquicamente, trabalham para um bem comum, logo, devem ser respeitadas no seu todo, e não descriminalizadas pelo posto que ocupam. Todo o trabalho, seja ele qual for, é digno, logo respeitável.

Sou contra as ideias de retornados. Eu vim de Moçambique, os meus pais tiveram de abandonar uma vida construída humildemente e regressar, para fugirem à guerra, ao disparate que foi a descolonização, não que sejam a favor das colónias (que fique escrito que não o sou), mas sim, sou contra a forma como foi feita a descolonização, com o escorraçar de quem foi honesto e humilde. Lembro-me de olharem para mim e para o meu irmão, ou para os meus pais, como pessoas estranhas, diferentes, um tipo de portugueses de segunda. Agradeço aos meus pais pela coragem, pela humildade e pelo amor que colocaram em todos os momentos, para que eu e o meu irmão tivéssemos um crescimento digno e com fortes bases culturais e humanos.

Sou contra a ideia das religiões como paradigmas do pensamento. As crenças devem ser individuais. Sejam elas quais forem. Regresso ainda ao Estado de Direito. Ele devia promover a criação de consciências, com a promoção de encontros de jovens, onde estaria a debate, vários assuntos, sociais, políticos (dos verdadeiros), religiosos, humanos, filosóficos, de uma forma isenta e responsável. Assim se ajudaria a criar ideias, consciências próprias e sem qualquer tipo de “prisões da mente”.

Não defendo a perfeição, defendo pedagogias.

Sou contra as guerras. Sou contra a ideia de que Hitler e outros semelhantes são loucos, não, eles eram racionais, e isso é que deve ser reflectido, que todos nós podemos ser como eles, a gestão do pensamento poderá sempre definir as fronteiras entre o dito bem e o mal. Louco é aquele que não sabe a diferença entre o que faz e o que deseja. Hitler e outros como tal, sabiam perfeitamente o que desejavam e como o poderiam obter. Estar de costas voltadas a esta ideia é estar cego, querer esquecer o que pode ser uma lição, e assim se conseguir prevenir. Detesto as ideias de só actuar depois do mal feito. Devemos prevenir para não termos que actuar.

 

Sou Humanista, ou mesmo (e permitam-me a criação de uma palavra, conceito) um “Vidalista” – Amante da Vida em si. Defendo que a Humildade é uma força e não uma fraqueza.

Defendo que antes do Direito existe um princípio de Dever, o Dever que temos para com a Vida, pela oportunidade que nos permite em existir. Mas a Vida nunca poderá ser uma relação de direitos/ deveres, mas sim um estado de existência, pura e concreta. Não podemos permitir que existam pessoas, animais, plantas, ou seres vivos, apenas porque se permite que tenham o direito de existirem. Nunca, tudo tem de existir pelo estado natural de existência e não pela escolha alheia de acontecer.

Sou anti anarquia. Sou defensor de uma sociedade democrata, mas acima de tudo meritocrata. O mérito deve ser pedagogia e não vaidade. O erro deve ser responsabilidade e pedagogia e não castigo ou desculpa gratuita.

Sou contra o facto de o Homem já ter conseguido ir à Lua, revolucionar as comunicações, tornando o mundo mais perto, de ter descoberto progressos nunca alcançados para certas doenças, de ter inventado aviões, navios, e outros mais… e ainda permitir que mais de 30 mil crianças morram à fome em Africa, e mais aquelas que morrem por esse mundo fora com fome, ou mesmo, permitir que pessoas vivam sem abrigo, sem um abraço.

Sou livre porque existo, penso e aceito-me a mim próprio.

Utópico? Sim, sou, mas não da Utopia irreal, sou um Sonhador de factos, dos dias, do presente, não me deito, eternamente, com o cobertor do passado, ou com a bola de cristal do futuro, apenas com a realidade do presente. E aqueles que gritam aos setes mares, que os sonhos são utopias, é porque, ou nunca sonharam, ou pior, porque sabem que os sonhos podem destruir, de facto, as ditaduras do pensamento.

Assim, escrevo, e escreverei, mas não de políticas, filosofias talvez, de histórias sempre, poesia às vezes, mas sempre, isso, escrevo.

Escrevi este texto, porque este blog, será, a partir de agora, semente de textos literários, e não de exposição de políticas. Estou farto, cansado, e como cidadão do mundo, quero contribuir para um dia melhor, e não para uma novela infinita de “parvoíces” e “mediocridades”, que servem para adormecer e alimentar o vazio.

Assim sou eu, para o bem e para o mal, mas feliz.

E venha o primeiro texto do resto da minha vida.

Obrigado a todos os que me lêem. Obrigado à Vida pela oportunidade que me oferece para poder escrever.

 

P.S. Sou contra o novo acordo ortográfico.

publicado por opoderdapalavra às 15:00
22 de Março de 2012

 

 

 

 

Eu não sou contra as greves.

Eu não sou contra os sindicatos ( só sou contra eles, quando estes se tornam partidos políticos).

Eu não sou contra as manifestações.

Eu não sou contra os ideais.

Eu não sou contra as correntes filsofico-politicas do Marxismo, do Socialismo, do Leninismo, da Social Democracia, etc, independente do que possa concordar ou discordar nas mesmas.

Eu não sou contra a ideia de se dar mais ênfase quando uma jornalista ou um cidadão leva com uma carga policial em cima, logo que estejam inocentes.

... Mas, e sem medo, existe uma coisa, que de facto, começo a estar contra... A Hipocrisia do Ocidente!

Começo a estar contra o facto de pensarmos que a Fome é apenas um problema dos outros, e falo na Fome em Africa, que mata há décadas, há tantos ou mais anos do que aqueles que eu tenho...

Começo a estar contra a ideia de que lutamos em prol dos direitos humanos no nosso país, mas viramos as costas aos direitos humanos no Uganda, no Sudão, no Darfur....e ainda temos o desplante de dizer-mos que ao lutarmos em Portugal pelos nossos direitos, é uma luta pelos direitos de todos... mas o 25 de Abril foi há mais de 30 anos ( exemplo de mudança), e a Fome em Africa continua, há mais de 40...

Começo a estar contra a ideia de que as lutas pelos desfavorecidos são apenas  jogos de imagem, posts no Facebook, frases pré-definidas, imagens, etc... e quando se pede para actuar, a resposta passa por: Os políticos que o façam, mas esquecemo-nos que somos nós quem define os políticos, logo somos nós o principio da responsabilidade...

Bono diz: " So what we're talking about here is human rights. The right to live like a human. The right to live, period. And what we're facing in Africa is an unprecedented threat to human dignity and equality.

 

The next thing I'd like to be clear about is what this problem is, and what this problem isn't. Because this is not all about charity. This is about justice. Really. This is not about charity. This is about justice. That's right. And that's too bad, because we're very good at charity. Americans, like Irish people, are good at it. Even the poorest neighborhoods give more than they can afford. We like to give, and we give a lot. Look at the response to the tsunami -- it's inspiring. But justice is a tougher standard than charity. You see, Africa makes a fool of our idea of justice. It makes a farce of our idea of equality. It mocks our pieties. It doubts our concern. It questions our commitment. Because there is no way we can look at what's happening in Africa, and if we're honest, conclude that it would ever be allowed to happen anywhere else."

( Quem não entende inglês, que procure a tradução, porque eu não consigo dizer melhor que as palavras dele...)

O que podemos dizer a um pai, que procura ter um pedaço de pão, ou um pouco de arroz, de farinha, para matar a Fome a um filho ou mais?

O que podemos dizer a uma criança, que nasceu com Fome, que teve o azar de nascer no sitio errado, no momento errado?

O que podemos dizer a uma criança, sobre o valor da Vida, quando ela assistiu à morte dos pais, dos irmãos, debaixo do ódio dos homens e ainda a obrigaram a pegar numa arma e irem matar outras crianças?... e quando as nossas crianças brincam com Playstations, Gameboys e outras coisas mais e tem um pão para comer?

O que podemos dizer a milhões de pessoas, que dormem e vivem com a morte, sobre esperança?

Afinal, para todos nós, como podemos viver de consciência tranquila, lutando pelos nossos direitos, pelos nossos ideais enquanto humanos, enquanto cidadãos, quando no "nosso quintal"( Africa), morrem 30 000 crianças a cada 3 meses, só porque tiveram o azar de nascer numa zona de conflitos e onde não existe riqueza que valha a pena lutar?...

Mas a maior riqueza de todas, não é o direito à Vida?

Enquanto este problema existir, eu tenho vergonha... tenho vergonha para mim e não para um Mundo, de facto, Melhor.

Não posso mudar o Mundo, enquanto não Mudar o meu MUNDO!

publicado por opoderdapalavra às 20:23
19 de Março de 2012

 

 

Hoje é dia do Pai.

Não vou escrever ao meu Pai, não porque ele não mereça, mas porque farei algo melhor, falarei mesmo com ele, escutarei a sua voz, os seus pensamentos, as suas emoções, sentimentos. Dir-lhe-ei o quanto o amo.

Mas sabem quantas crianças não adoravam ter esse privilégio?

Pois, em África, existem milhares de crianças, de pais, de filhos, que não podem e nem sabem da existência de um pai, quanto mais de um dia do Pai.

Mas África é aqui mesmo ao nosso lado. Não é em Marte, nem mesmo nos filmes da Tv ou do cinema.

É aqui no nosso quintal. À beira da nossa vida.

Quanto mais tempo vai ser necessário, para nos juntarmos todos e dizermos BASTA!?

Hoje é dia do Pai, mas pode ser também o inicio do dia de acharmos que podemos de facto mudar algo, mas primeiro temos de mudar algo em nós.

Vamos a isto?

 

publicado por opoderdapalavra às 00:43
12 de Março de 2012

 

Deixo-vos dois textos, um em português, uma breve análise ao texto em inglês, por parte de José Manuel Fernandes, sobre os ultimos desejos de pessoas a quando do momento de morrer, a reflectir:

 

Muito interessantre este artigo sobre os cinco principais lamentos de quem está a morrer. E de que é que têm pena os que partem? Não, não é de terem tido pouco sexo. É de coisas bem mais substanciais:
1. Lamentam não terem tido a coragem de viverem as suas próprias vidas, não as vidas que outros desejaram que vivessem;
2. Lamentam terem trabalhado tão arduamente;
3. Lamentam não terem tido a coragem de expressarem os seus sentimentos;
4. Lamentam não terem mantido o contacto com os seus amigos;
5. Lamentam não terem permitido que fossem mais felizes.
Os que estão vivos ainda vão a tempo de, antes de morrerem, corrigirem o seu modo de vida para, depois, não se arrependerem. É, não é?
Leiam o artigo que vale a pena.

 

 

There was no mention of more sex or bungee jumps. A palliative nurse who has counselled the dying in their last days has revealed the most common regrets we have at the end of our lives. And among the top, from men in particular, is 'I wish I hadn't worked so hard'.

Bronnie Ware is an Australian nurse who spent several years working in palliative care, caring for patients in the last 12 weeks of their lives. She recorded their dying epiphanies in a blog called Inspiration and Chai, which gathered so much attention that she put her observations into a book called The Top Five Regrets of the Dying.

Ware writes of the phenomenal clarity of vision that people gain at the end of their lives, and how we might learn from their wisdom. "When questioned about any regrets they had or anything they would do differently," she says, "common themes surfaced again and again."

Here are the top five regrets of the dying, as witnessed by Ware:

1. I wish I'd had the courage to live a life true to myself, not the life others expected of me.

"This was the most common regret of all. When people realise that their life is almost over and look back clearly on it, it is easy to see how many dreams have gone unfulfilled. Most people had not honoured even a half of their dreams and had to die knowing that it was due to choices they had made, or not made. Health brings a freedom very few realise, until they no longer have it."

2. I wish I hadn't worked so hard.

"This came from every male patient that I nursed. They missed their children's youth and their partner's companionship. Women also spoke of this regret, but as most were from an older generation, many of the female patients had not been breadwinners. All of the men I nursed deeply regretted spending so much of their lives on the treadmill of a work existence."

3. I wish I'd had the courage to express my feelings.

"Many people suppressed their feelings in order to keep peace with others. As a result, they settled for a mediocre existence and never became who they were truly capable of becoming. Many developed illnesses relating to the bitterness and resentment they carried as a result."

4. I wish I had stayed in touch with my friends.

"Often they would not truly realise the full benefits of old friends until their dying weeks and it was not always possible to track them down. Many had become so caught up in their own lives that they had let golden friendships slip by over the years. There were many deep regrets about not giving friendships the time and effort that they deserved. Everyone misses their friends when they are dying."

5. I wish that I had let myself be happier.

"This is a surprisingly common one. Many did not realise until the end that happiness is a choice. They had stayed stuck in old patterns and habits. The so-called 'comfort' of familiarity overflowed into their emotions, as well as their physical lives. Fear of change had them pretending to others, and to their selves, that they were content, when deep within, they longed to laugh properly and have silliness in their life again."

What's your greatest regret so far, and what will you set out to achieve or change before you die?

Fonte: The Guardian.

publicado por opoderdapalavra às 22:19
07 de Março de 2012

Escrever.

Rodo a cabeça num arco traçado no meu imaginário, sinto aquele estalo que me liberta a pressão muscular da jugular, onde corre sangue quente, talvez repleto de uma mucosa e viscosa partícula a que se dá o nome de gordura, tem ainda o açúcar, e os glóbulos, e quem sabe, alguma merda qualquer que me deseja enfraquecer o cérebro e que me está a matar suavemente. Mas que se lixe, não será por isso que deixo de rodar a cabeça.  É estranho, de facto, pensarmos em tanta coisa, apenas porque executamos um movimento simples e, à partida, relaxante. De facto, o nosso pensamento produz um abismo em espiral de imagens que nos podem transformar num realizador instantâneo de filmes, sejam de terror, como no outro dia, quando olhava uma mulher que me disse que não ao sexo e eu imaginei-a logo a suplicar-me para que não a rasgasse com uma faca laminada pelo senhor do talho da esquina, aquele mesmo, que corta os bifes com um ar de serial killer transtornado por uma infância abandonada e onde extravasaram momentos de violência gratuita… ela gritava “por favor, por favor, eu faço sexo contigo, mas não me mates, peço-te, ó grande homem que brotas em mim o frenético desejo de ser possuída…”, claro que a seguir imaginei um filme de drama, armando-me em homem ferido, algo do género de Clark Gable, e virei as costas e fui embora, deixando-a a chorar e a suplicar, de novo, mas por umas horitas de sexo doce e carinhoso… e depois acordei, sem sexo, sem mulher e… sem acção, apenas com o “corta” do meu pensamento…

Estou à cinco minutos a tentar escrever e continuo a vaguear por disparates do meu pensamento, apenas porque faço filmes no ar, coisas que acontecem a todos os momentos de pura distracção, sem nexo. Penso agora mesmo no homem que hoje de manhã me abordou para vender um telemóvel de última geração. Bonito no design, “ Feito precisamente para pessoas como você”, fiquei desde logo estarrecido com a ideia, outra vez o pensamento a funcionar como máquina projector de filmes mudos, de que alguém no outro lado do mundo sabia da minha existência e pensou “ Vou inventar um telemóvel de ultima geração, sei lá o que isso será, mas para aquele tipo bem-parecido, que escreve umas coisas, para se tornar em alguém mais socialmente extraordinário”…. E comprei. Vim para casa a correr, pois ele disse que o tinha de carregar, e quando cheguei é que me lembrei, “ Então ele vendeu-me o aparelho, mas sem caixa, apenas o aparelho, e carrego-o com o quê? Pilhas? Não dá. Carregador? Não trouxe.” Porra, fui enganado, quer pelo vendedor, quer pelo tipo do outro lado do mundo que o inventou para mim. Pior que enganado uma vez, é enganado duas vezes. Mas, como sou tão perspicaz, não deixei de andar pela rua com o telemóvel no ouvido, fingindo, mais um filme, que estava a falar com alguém… falei com tanta gente, que parecia sempre ocupado, cheguei mesmo a ser interpelado por várias pessoas, a quem rejeitava a conversa sinalizando o atender do telemóvel, e chegou  mesmo a haver uma mulher bonita que me disse, “ Desculpe, mas pode-me ajudar” e eu, durão, fiz-lhe também sinal que estava ao telemóvel, e ela sorriu e acho que me soou a um palavrão qualquer quando virou as costas e se dirigiu a outro homem a solicitar-lhe ajuda para procurar o seu cão… enfim, não posso deixar o meu look fabuloso com um telemóvel para ir ajudar uma mulher linda de morrer, com quem podia travar algum tipo de conversa interessante, mas que me deixaria numa situação incomoda ao desligar a chamada com a pessoa com quem estava a falar… mas agora me lembro, eu não estava a falar com ninguém, apenas comigo próprio… irra, já voltei a perder uma oportunidade de ter uma mulher bonita ao pé de mim… mais uns filmes que o meu pensamento voltou a rodar…

Sabem, estou cansado, não consigo escrever, estou sem ideias, vou-me deitar e descansar. Isto de pensar, cansa.

publicado por opoderdapalavra às 19:54
04 de Março de 2012

O meu Grande Amigo Luis Miguel Rocha diz tudo. Obrigado Luis.
Perguntava-me um amigo estrangeiro onde estava o nosso nacionalismo e patriotismo? Após alguns instantes de consideração respondi-lhe que não precisamos disso. Ele estranhou, ao passo que lhe expliquei que ser português é muito mais que pertencer a uma comunidade delimitada, é uma maneira de ser. Não queria dizer com isto que não somos patriotas nem nacionalistas, só que isso está de tal forma enraizado e a um nível tão profundo que não temos necessidade de o manifestar. Ao contrário dos outros países, é uma dádiva e não uma conquista e é algo totalmente e plenamente garantido.
Somos a única nação-estado da Europa. Ele não compreendeu o que significava isso. Quer dizer que a nação é inteiramente compatível com o Estado, não temos divisões que nos demarquem nem separem. Portugal é o país e as ilhas e mais nada. Estamos todos perto uns dos outros no mesmo território terrestre e marítimo. Basta passarmos a fronteira para vermos uma nação com várias regiões (Catalunha, País Basco, Galiza, etc.) que, embora no mesmo território, têm mais coisas a separá-los que a uni-los. Há muitas Espanhas dentro de Espanha e fora também. A Alemanha e o Reino Unido estão divididos por estados que não se podem ver uns aos outros, uma manta de retalhos em que os canídeos de cada região se mordem com avidez e lançam latidos ameaçadores, a Itália é outro exemplo de uma nação dividida por regiões e povos muito diferentes uns dos outros. A França idem, idem, a Suíça, Holanda, Bélgica, etc. etc.
Isso não se passa em Portugal. Portugal é sempre o mesmo, de cima a baixo e nas ilhas. 
Temos outra coisa singular em toda a Europa, uma língua única, de Norte a Sul, à excepção de 300 amigos em Mirandela, que ainda utilizam os resquícios deixados pelo antigo reino Leonês. Mais nenhum outro país beneficia disso. As pretensas diferenças entre o Norte e o Sul, que o futebol preconiza, não existem. Somos um país uno.
O meu amigo estranhou. Achava que alguma diferença havia de haver. Respondi-lhe que no Sul talvez se use mais agrião na comida que no Norte.
Somos um país com identidade, fronteiras permanentes há 900 anos, exceptuando Olivença, estruturado desde os primórdios, de cima para baixo, com pilares indestrutíveis, corremos com muçulmanos, fomos atacados por espanhóis durante 800 anos, resistimos a 4, não 3, invasões francesas, construímos um império, dominamos os mares...
Os nossos políticos não prestam, é verdade, mas por muito que nos tentem destruir ignoram que enfrentam uma força indestrutível. Eles passarão e nós prevaleceremos. O português funciona muito bem sob pressão. Quando fomos chamados, e aconteceu muitas vezes ao longo da nossa história, a tomar uma posição, a mudar as coisas, a enfrentar os nossos inimigos, nunca viramos as costas e fomos sempre, sem excepção, bem sucedidos.
O nacionalismo e o patriotismo só está à flor da pele de quem se sente ameaçado e tem de lutar por ele. Nós, portugueses, não temos esse problema. Portugal e ser português é tão natural como a órbita terrestre, o nascer e o pôr-do-sol, os ciclos da lua. Muito poucos beneficiam desse luxo. Apenas dez milhões, encostados ao oceano. Chamam-lhe uma das pontas da Europa, eu chamo-lhe a porta principal do Velho Continente.
publicado por opoderdapalavra às 22:07
29 de Fevereiro de 2012


Nem sempre prestamos atenção às pessoas que nos rodeiam e, mais raramente ainda, procuramos saber qual é a sua história – será que nos falta ousadia?
Vinda de muito longe, Djuku é uma dessas pessoas; aqui está um pedaço da sua história.

1

 

No exacto momento em que parte, Djuku apercebe-se de que é a primeira vez que deixa a sua aldeia.
Desde o seu nascimento até hoje, Djuku viveu sempre rodeada pelos seus na pequena aldeia à beira da savana. Ela conhece cada recanto. E ninguém lhe é ali desconhecido. Do mesmo modo, todos os aldeões sabem quem é Djuku:
— Djuku? É aquela que sabe assobiar, melhor até do que um pássaro!
— Quando há por aqui almoço de festa ou de cerimónia, é sempre Djuku quem os faz: ela conhece todas as receitas e até inventa mais!
É verdade que Djuku cozinha galinha como ninguém, mas hoje Djuku vai-se embora. Decidiu partir para longe, muito longe. É que aqui na aldeia, apesar dos amigos, apesar das cerimónias, não há trabalho suficiente.
Fez-se à estrada e fixa os olhos na linha do horizonte para não se voltar, para não chorar. Bem, vamos lá a ver, partir assim é demasiado duro. Então, uma última vez, e antes que a aldeia desapareça na desordem das ervas altas, ela olha-a. Olha-a durante tanto tempo e tão apaixonadamente que todas as coisas onde o seu olhar toca entram no seu corpo.
Agora sim, Djuku pode pôr-se a caminho.
A velha guitarra de Quecuto entra no seu corpo. E com ela todos os perfumes das músicas tantas vezes ouvidas.
A palmeira inclinada e o embondeiro do largo entram no seu corpo.
O caldeirão de Nhô-Nhô entra no seu corpo.
A casa de Pepito entra no seu corpo, apesar do seu tecto desgrenhado.
A barca e as redes de pesca de Benvindo que repousam sobre a areia entram no seu corpo. Sente que todas estas coisas estão dentro dela firmemente atadas como carga de um navio. Sente que, a cada passo dos muitos que dará, a aldeia estará consigo.

2

 

Durante a viagem de vários dias, as descobertas sucedem-se e deslumbram Djuku. Pouco a pouco, ela esquecerá a aldeia.
Atravessa imensas planícies acariciadas por ventos amistosos e cruza montanhas azuis onde chega a pensar que morrerá de frio. Incontáveis rios e ribeiras fazem-lhe companhia no seu périplo e, enquanto caminha ao longo das margens, as águas tumultuosas e murmurantes contam-lhe histórias fabulosas.
Muita gente se empurra na berma da estrada para a ver passar. Alguns aconselham-na a fazer meia volta, pois é uma grande loucura. Outros, pelo contrário, encorajam-na, oferecem-lhe pequenas prendas, que ela se apressa a dar por sua vez, mal entra numa nova aldeia.
«Convém ir ligeiro quando se viaja», diz ela de si para si, e logo acrescenta: «Gosto destes dias, gosto destes perfumes novos.»
Pela primeira vez desde há muito tempo, Djuku sente-se extremamente feliz, pondo um pé à frente do outro com uma espécie de bebedeira. Pressente que a sua viagem chegou ao fim quando certa noite viu desenhar se no horizonte uma barreira sombria de grandes edifícios iluminados aqui e ali por pequenas cintilações.
— Eis a cidade que eu procurava — disse Djuku simplesmente.
Decide que só entrará no dia seguinte.

3


Pela manhã, muito cedo, Djuku entra na cidade quase deserta àquela hora.
Alguém, todo vestido de amarelo, lava as ruas com grande quantidade de água. Um pouco mais adiante, um condutor de autocarro sem passageiros assobia alegremente enquanto faz manobras. Djuku ziguezagueia na calçada com a impressão de que caminha sobre terreno virgem.
Não presta atenção à grande mosca verde barulhenta que engole com uma boca gigantesca os últimos pedaços de noite, até que esta, depois de muito mastigar, se atira a ela. Djuku vacilou e quase caía se antes uma vaga de pessoas, vindas de lado nenhum, não a levasse em uma louca cavalgada. São milhares de homens e de mulheres que se precipitam para os seus locais de trabalho. Viram à direita e à esquerda, sem nexo, embrenham-se nas entranhas da terra para logo saírem mais adiante, sobem e descem escadas, corredores, ruas e depois avançam a golpes de gritos e assobios, de buzinas e apitos ululantes.
— É uma floresta de gente em marcha! — exclama Djuku, que nunca tinha visto tanta gente na sua vida.
Desta vez ninguém lhe oferece presentes, nem lhe pergunta de onde vem.
Djuku deixa-se levar ao sabor da corrente durante toda a manhã, incapaz de resistir, sacudida por uns, empurrada por outros, sem saber para onde ir. Ao meio-dia, quando a corrente diminuiu de intensidade, Djuku, com o corpo extenuado e os pés doridos, consegue escapar-se e vai encalhar um pouco adiante no banco de uma praça.
— Por pouco não me afogava nesta maré! — suspira Djuku massajando os tornozelos. — Ninguém me tinha dito que havia transumâncias.
Lentamente retoma o fôlego e passeia o seu olhar, tentando descobrir onde acabou por cair. É uma pequena praça, tendo ao centro um relvado careca, com um trio de árvores enfezadas e um cão minúsculo que cabriola entre uma e outra para as aspergir. A toda a volta estão casas de fachada rosa-cinza e umas quantas pequenas lojas.
Djuku repara que na montra de cada uma há um anúncio pendurado. Aproxima-se da loja mais próxima e lê: «Procura-se aplicadora de champô em cães mimados. Pede-se C.V.»
— Isto não é para mim — diz Djuku — nem sei o que é!
A loja seguinte desejava encontrar rapidamente uma «comediante para duas tragédias» e o terceiro anunciava: «Uma profissão brilhante? Torne-se lavadora de azulejos.»
— É demasiado arriscado. Para mim não serve! — suspira Djuku.
A quarta loja procurava uma «operadora-de-máquina-electricista a meio-tempo para grandes reparações em brinquedos delicados».
— Oh, isso é muito complicado. Também não é para mim — diz uma Djuku já desolada.
A quinta loja é um restaurante chamado BARRIGA DA BALEIA, e um cartaz escrito à mão explica: «Boa cozinheira? Entre depressa!»
— Claro que vou entrar! — exclama logo Djuku — isto sim, é para mim.

4


Mal Djuku passa a soleira da porta do restaurante, é acolhida por um pequeno homem bonacheirão, o patrão, o senhor Isidoro, que quase logo a aceita como cozinheira.
Quase logo, porque lhe pergunta antes se ela sabe «distinguir o sal da pimenta, é que, sabe, tenho clientes que não são nada fáceis!». E diz-lhe em seguida, mostrando o menu:
— Bem, está tudo aí, não é complicado e a partir deste momento a chefe da cozinha é você!
— De resto — corrige-se ele — o chefe do aprovisionamento é você também, e o chefe da condimentação é também você, além, é claro, das idas ao mercado.
Nas semanas que se seguiram, ao ver tantas vezes o senhor Isidoro junto à porta do restaurante, Djuku compreendeu o ar de satisfação dele ao dizer-lhe aquilo tudo. O senhor Isidoro adora fazer a sesta na BARRIGA DA BALEIA.
Djuku aproveitou este cargo para fornecer a cozinha de novos condimentos: coentros, cominhos, funcho, menta, alecrim. E para modificar os pratos, cozinhando ou temperando de maneira diferente as carnes, os legumes, os peixes. Nem toda a gente gostou.
— Socorro, tenho a garganta a arder — gritava um cliente de vez em quando.
— Querem envenenar-me, chamem a polícia! — vociferavam outros.
Mas o senhor Isidoro não se deixava convencer, e nada dizia, até porque a maioria dos clientes aprovava a mudança e Djuku conseguia realizar pratos suculentos.
Uma nova vida começava para Djuku na BARRIGA DA BALEIA.

5

 

Se alguma coisa atraiu a atenção do senhor Isidoro foram as mãos de Djuku. Aliás, ao longo dos vários meses que Djuku passou a trabalhar na BARRIGA DA BALEIA, as coisas resumiam-se a isto: para ele e para os clientes habituais do restaurante, Djuku não era mais que duas mãos, uma esquerda genial, uma direita fabulosa.
Convém saber que, durante o dia, Djuku não aparecia na sala do restaurante, e como ela vinha trabalhar de manhã cedo, só saindo muito depois do fecho, ninguém sabia ao certo quem ela era, como ela era. Só as suas mãos eram conhecidas do «público».
É que era um espectáculo, como dizer, real, ver aquelas mãos elevando um prato através da abertura que separa a cozinha da sala do restaurante. Djuku, numa palavra atirada ao criado de servir, anunciava o prato, mas a sua voz é demasiado doce para ser ouvida. Em palco estavam apenas as suas mãos.
Os clientes que pediam, fosse um qualulu, fosse uma galinha com molho de amendoins, passavam os minutos seguintes de olhos postos na abertura. Não eram poucos aqueles, mais nervosos, que chegavam a roer as unhas.
— Deviam ter pedido também uma entrada — aconselhava-os sempre o senhor Isidoro.
As mãos de Djuku são as suas ferramentas e o seu tesouro. Não serão o que podemos chamar belas: a palma é larga, os dedos finos de tamanho médio e bem assentes, as unhas compridas tratadas. A pele neste lugar do corpo parece um pergaminho e, no caso dela, é riscado por pequenas cicatrizes (talvez o preço de uma distracção no momento da aprendizagem).
É mesmo a graça dos seus gestos, a agilidade, o que encanta os clientes da BARRIGA DA BALEIA. As mãos dançam ao redor dos pratos até ao momento da entrega. Acontece às vezes descansarem na borda da abertura. Estarão a contemplar, satisfeitas, a vida ruidosa da sala do restaurante? Ou será que esperam alguém ou alguma coisa? É difícil saber. Elas partem sempre de súbito, saltitantes, para se agitarem ao redor dos fogões.

6

— Uau, este frio gela-me as mãos e o senhor Isidoro que nunca mais vem! Deve estar na cama, tudo lhe serve de pretexto para se lá meter! — constata Djuku divertida ao abrir as portas da BARRIGA DA BALEIA.
Não que precise do seu patrão para pôr em andamento a cozinha, ela já conhece o ritual. De imediato, deita mãos ao trabalho, pois tem muito que fazer. Acende os fornos, tira os alimentos da arca congeladora, e logo os seus dedos se afadigam, descascam legumes, amassam as pastas, preparam os caldos, confeccionam as sobremesas. Durante toda manhã, Djuku não terá um minuto de descanso, mas assim que, aí pelo meio-dia, chegarem os primeiros clientes, tudo estará pronto. Nestas alturas, a aldeia está em bem longe. Djuku nem sonha.
Ao meio-dia dispara o tiro de partida! Todos os clientes afluem para almoçar. A confusão ameaça. Mas a comandante Djuku está ao leme e a BARRIGA DA BALEIA não aderna e continua a sua rota.
Segue-se a calma da tarde. Djuku conta com um repouso bem merecido. Mas, com cada vez mais frequência, é assaltada por antigas imagens, incómodas como crianças turbulentas mantidas demasiado tempo à mesa e que têm necessidade de esticar as pernas.
«Antes», pensa, «todos sabiam quem era Djuku, agora eu sou uma sombra que passa, que vai para o trabalho de manhã e que regressa à noite. Aqui ninguém me conhece, sou uma sombra sem história.»
Olha à sua volta e o que vê fá-la sorrir: ela imagina a aldeia, a savana, os campos de arroz, o sol quente na sua pequena cozinha!
«Por que raio não será isso possível? Um dia», pensa, «será preciso que o que eu vivi se case com o que eu vivo, que o restaurante fique noivo da aldeia.»
Uma ideia engraçada que a fez, primeiro, rir e, depois, chorar.

7


É noite. O restaurante está fechado. Um a um, todos os clientes se foram. Até o senhor Isidoro já foi para sua casa. Djuku ficou sozinha. Sentada, olha as palmas das mãos, a geografia das rugas da sua pele, talvez procurando um caminho a seguir.
Tudo está calmo na cozinha. Mas Djuku ouve um barulho imenso. Os objectos, acolchoados no interior dela, estão ali, agitados, barulhentos, e querem escapar a qualquer preço.
«O vosso lugar não é aqui», suplica Djuku, «deixem-se estar sossegados.» Eles não queriam ouvir nada e continuaram com a sua terrível algazarra. Então, uma vez mais, Djuku conta a historia a si mesma. Em voz alta, invoca a aldeia e as suas gentes, o calor que faz quando o Sol atinge o seu zénite, o odor do carvão de madeira, do peixe que foi posto a secar nos telhados das casas, o da poeira que tudo invade.
Absolutamente decidida, entra no restaurante.
A sua memória, tão viva, apazigua-se a pouco e pouco. Quando tudo parece voltar a estar em ordem, que de novo nela se instalou a paz, Djuku deixa o restaurante e vai para casa descansar.

8


Quando Djuku cozinha, tudo o resto perde importância.
Os clientes na sala bem podem falar alto e grosso, a rádio e a televisão bem podem armar zaragata, que Djuku consagra-se à sua tarefa de tal maneira que só ouve as encomendas do criado de servir. Ela é como uma rainha no seu reino e cada uma das suas coisas, marmitas, panelas, pratos, talheres, especiarias, pratos ou fogões, a protegem da confusão, mantendo-a no centro daquele forte, a cozinha. Nem mesmo o senhor Isidoro pode ali entrar.
Certo dia, contudo, um estranho projéctil atingiu Djuku em cheio: era uma palavra.
Uma palavra que havia escapado da boca do apresentador de televisão. Djuku deixou cair a batata e a faca que segurava nas mãos e deixou-se literalmente invadir. A palavra cresceu nela, ganhou balanço, fez-se furacão, explosão. Acabou por inundá-la, deixando apenas uma casca vazia, desorientada, frágil.
Djuku entrou na sala e dirigiu-se, hipnotizada, para a televisão. Ao vê-la de lágrimas nos olhos, os clientes calaram-se todos, olharam uns para os outros e interrogavam com esse mesmo olhar o senhor Isidoro.
Este, sentado no lugar do costume, perguntou com voz inquieta:
— Está tudo bem, Djuku?
Ela não respondeu. Assoou o nariz com o punho. Soluçava.
«Deve ter queimado os dedos», pensa um cliente.
— Minha senhora, a caldeirada estava fa-bu-lo-sa, devorei-a todinha! Veja aqui o meu prato — diz-lhe outro.
— Mas o que é que se passa hoje? — perguntaram de súbito a uma voz todos os clientes.
Pela primeira vez desde a chegada de Djuku, os clientes da BARRIGA DA BALEIA viram- na e olharam-na verdadeiramente.
A palavra, insignificante para eles, era o nome da aldeia de Djuku.

9


O senhor Isidoro agarrou-a pelos ombros e fê-la sentar-se.
— Seca as tuas lágrimas, Djuku. Diz-nos o que te aconteceu.
Aconteceu então o seguinte. Djuku, que já havia retomado o fôlego, começou a contar e os objectos que estavam há tanto tempo dentro dela saíram da sua boca para virem, à vez, pontuar o seu discurso: a partida da aldeia, a viagem, a chegada à cidade, e à BARRIGA DE BALEIA, o trabalho e a sua grande solidão. Os clientes e o senhor Isidoro apanhavam os objectos à medida que eles surgiam.
A velha guitarra de Quecuto saiu do seu corpo com os perfumes das músicas tantas vezes ouvidas, e um cliente apanhou-a para a tocar.
A palmeira inclinada e o embondeiro do lago saíram do seu corpo e um cliente pegou neles e foi pô-los junto à entrada do restaurante.
O caldeirão do Nhô-Nhô saiu do seu corpo e um cliente colocou-o no meio da sala.
A casa de Pepito saiu do seu corpo e os clientes apossaram-se dela para arrumar a sala.
A barca e as redes de pesca de Benvindo saíram do seu corpo e os clientes colocaram-nas à sombra do embondeiro.
Sim, logo em seguida Djuku sentiu-se aliviada e em paz. Viu as coisas que estavam nela firmemente atadas como carga de um navio partilhadas por todos. Percebeu imediatamente que a aldeia tinha desposado o restaurante.
Agora toda a gente conhecia a história de Djuku.
— Não podemos ficar aqui! — disse alguém.
— É preciso festejar isto — disse um outro — como na aldeia!

Nota ao leitor

Depois deste famoso dia, a divisória que separava a cozinha da sala do restaurante foi derrubada pelo senhor Isidoro com as suas próprias mãos.
Leitor, se tiveres vontade de ir à BARRIGA DA BALEIA para saborear os melhores pratos que existem, não deixes de trocar dois dedos de conversa com Djuku, agora que ela cozinha no meio de todos. E já agora, por favor, pede-lhe da minha parte notícias da aldeia.

Alain Corbel
A viagem de Djuku
Lisboa, Caminho, 2003
Adaptação

publicado por opoderdapalavra às 22:06
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